é aqui que eu deixo fluir a imaginação

Tonteira

22 de novembro de 2013

Eu queria aqui poder pôr recordações. Mas não em puras palavras; recordações da maneira como eu as vejo, com toda a sua beleza e encanto. Queria aqui poder descrever as palavras que um dia me foram ditas, e não apenas dizê-las. Queria aqui poder passar a emoção com a qual eu vivi cada segundo, ou mostrar o quão forte bateu meu coração. Mostrar o quão importante alguns momentos foram para mim.

Contudo, a mente nos dá essas reviravoltas – ela reserva para si todas as melhores dádivas. Não posso compartilhá-las aqui, não, pois sou incapaz de reproduzi-las em tamanha perfeição de detalhes. Não sou capaz, embora queira ser com todas as minhas forças. Embora queira gritar ao mundo “foi assim que aconteceu e isso não me sai da cabeça”.

Poderia também optar pelo caminho mais simples. Poderia decidir abandonar todas essas lembranças que me são tão belas. Sem elas, eu seguiria em frente. Sem elas, eu não precisaria de descrições cautelosas, minuciosas e precisas.

Sem elas, o passado não me seria tão sedutor.

Procura-se um botão de deletar... ou, quem sabe, um de voltar.

Passatempo

4 de novembro de 2013

Uma palavra, duas palavras, três palavras. Preencham-se os espaços e as lacunas desta folha, assim como do meu tempo. O tédio se impregnou neste instante de minha vida e agora procuro o que fazer. Então, texto, texto meu, o que escrever em um dia de hiperatividade como o meu?

Difícil dizer. Posso comentar do sol, que hoje ilumina tudo de uma maneira peculiarmente bela. Posso falar das pessoas, dos amigos, das companhias que hoje tive ao meu lado. Posso escrever sobre a música animada que ouço, sobre meu cabelo que estranhamente ficou liso ou sobre meus dons culinários que enfim resolveram funcionar. Mas nenhum destes será o assunto discutido aqui nessas linhas.

Escolho falar do porquê prefiro me entediar a fazer algo.

Tudo bem, escolho falar do meu jeito. Meu jeito não é explícito, não evidencia nada. Pode ser que você, caro leitor ainda mais desocupado que eu, não venha a entender o que aqui direi. Mas eu continuarei escrevendo tudo de forma implícita e única.

Estou aqui porque sou burra.

Burra, anta, retardada. Estou aqui porque tenho problemas em me livrar do passado; eu simplesmente não consigo esquecer nada. Tanto no sentido literal quanto no emocional. Minha memória é boa para tudo: desde fórmulas até amores. Eu não me esqueço de nada.

Datas, rostos, sorrisos. Todos gravados nas entranhas de minha mente; presos ao mundo que já ficou para trás. Um mundo que eu arrasto comigo para todos os cantos, inclusive para o canto do tédio. Trouxe-o para perto de mim e, consequentemente, ganhei o vazio. Estou me privando de fazer algo a quilômetros daqui porque eu prefiro viver ontem do que o hoje.

Mesmo que o dia esteja bonito, ensolarado; que a música esteja boa e meus cachos desmanchados. Eu ainda vou me apegar ao que fui, e não ao que sou.

E isso é tedioso.

Pena que é tão bom de contemplar...

Uma metáfora

29 de outubro de 2013

A árvore cresceu cheia de vida. Suas folhas eram verdes, os frutos suculentos. As raízes eram fortes e se entranhavam pelas terras com firmeza. Ela era, assim como as outras, um belo exemplo do que a natureza ainda tinha de melhor.

Regavam-na todos os dias. Por isso, suas forças eram recompostas a cada manhã, e, assim, ela tinha motivos para continuar a crescer. Cresceu e cresceu mais conforme o tempo se passava; as pessoas começaram a comentar a respeito de sua exuberância. Era linda. Uma essência única era cultivada dentro de si. Uma vida maravilhosa e cheia de legados.

Até que um dia pararam de regá-la; a água havia se cessado. A árvore pensou que duraria um dia ou dois, mas durou mais. Durou uma eternidade. Esqueceram-se dela e de seu potencial grandioso. Esqueceram-se do quanto ela necessitava de cuidados.

Suas folhas, fracas, foram se secando. Foram caindo. Foram se acumulando perto da base de seu tronco. Os galhos nus deixaram-na pobre de cor e magra de conteúdo. Os bons frutos que ela carregava caíam e, no chão, apodreciam. Novos frutos não nasciam mais. E ela foi se definhando até que a morte lhe pareceu a melhor opção.

Dizem que ela é uma boa árvore lá no céu, regando com sua chuva de bondade todas as outras que, assim como ela, vierem a ser, um dia, esquecidas.

Recordação fantasiosa

2 de outubro de 2013

Ela está sentada em sua cadeira usual. Não é muito longe; é a distância ideal para ver tudo o que deseja sem esforços. Sem alardes. Ela gosta de onde está, sabem-se lá seus motivos para tal. E ela pretende ficar por ali; aliás, se pudesse, ela ficaria por ali por uma eternidade inteira.

Um sorriso cobre-lhe o rosto. Seu mais novo presente de aniversário estava derramado sobre seu cabelo, como uma tinta de ouro. Ela o havia tratado e, embora não tivesse gostado muito do resultado – ou não tivesse gostado nem um pouco – era bom estar com uma aparência diferente em um diferente ano de sua vida. Por isso ela sorriu e não retirou mais o sorriso dos lábios – estava feliz por tudo, e tudo a fazia feliz.

Sentou-se um alguém a alguns palmos dela. Ele estava em sua diagonal, de forma que era enquadrado perfeitamente no canto de sua visão. Seu olhar oblíquo passou a não deixar a imagem dele escapar mais. Ela notou-o conversar, soltar risadas. Ela olhou-o e o sorriso perdeu as forças. Ela olhou-o e desejou não mais o olhar.

O maior ponteiro do relógio andou algumas casas, mudando o horário e as cenas vistas por ela. Ele se virou; um giro de 120º, mais precisamente. Seus cabelos acobertavam-lhe parte da face de forma engraçada, e ela quase quis rir. Segurou o riso, e junto deste também a vontade de fugir dali correndo. Ela não queria ouvir mais nada que a deixasse para baixo.

Mas o que ele disse a ela não estava previsto na agenda. Não era nenhuma de suas falas rotineiras, e ela estranhou isso. Ele perguntou-a o que ela havia feito no cabelo. Tal indagação instigou o coração dela – "por que ele se importa?", seus pensamentos disseram. A garota o respondeu inocentemente.

Os cabelos expuseram parte do rosto dele. Ela pôde ver-lhe os olhos desta vez. Olhos brilhantes como duas estrelas. Era diferente, como se o que os habitasse fosse um ser diferente. Eles iluminavam seu olhar e o olhar de quem os via. Foi quando o garoto acrescentou à conversa uma simples fala serena antes de voltar-se para um amigo qualquer. "Ficou bonito".

A anatomia da lástima

29 de setembro de 2013

Ando repetindo um mesmo pedido várias e várias vezes: peço para que alguém me salve de minha própria mente. Eu deveria estar segura comigo, não? Eu deveria me sentir bem pelo simples fato de ter a mim acima de qualquer outra pessoa. Mas não. Minha mente me envenena mais a cada minuto com sua força bélica: os pensamentos. Eles me consomem, me seduzem, me apunhalam. Eles me enfeitiçam e se utilizam de minha fragilidade como uma arma.

Sim, uma arma. Levo tiros na cabeça constantemente. Mas, ao invés da bala me matar, ela desce com dificuldade pela garganta. Vai machucando toda a faringe, o esôfago. Vai me apertando e me enfraquecendo. “Não chore”, eu apelo. Não chore. Se você chorar, a dor da bala passa; contudo, as seqüelas ficam. A mágoa não sai pelas lágrimas, ela se acumula na córnea e altera sua visão para sempre. Ela se transforma em uma lente, deixando as imagens no monótono preto e branco.

Prefiro engolir a bala e lidar com o incômodo de tê-la empacada na garganta a chorar. Inspiro fundo – preciso de ar. Preciso respirar; oxigenar o cérebro. Dizer-lhe: pare, ou eu também paro. Pare, ou tudo o que farei será privar-te de receber tal combustível que agora tu tens de sobra. O alerta funciona por um tempo; não obstante, eu sei que o efeito dura poucas horas. Após mais algumas respirações, ele verá que eu não sou capaz de tomar-lhe a vida. E o veneno voltará a assombrar-me a mente.

Alguém vem? Alguém vem me ajudar? Alguém vem me tirar da cabeça as lástimas, os problemas, as preocupações? Alguém vem me distrair do assassino que toma conta de mim?

Pena que não consigo contar nos dedos quantos alguéns me restam. Não sei se é porque o feitiço os atingiu também, e já nada mais posso ver; ou se é porque, no fundo, eles não passam de dedos. Dedos que servem apenas para o sensível, e não para o emocional. Dedos que só me mostram mentiras, e não as verdades absolutas.

Aproveitar

25 de setembro de 2013

Então... é agora que tudo começa? É agora que a vida começa?

Começarei o texto com um ponto. Não para contradizer minhas indagações ou para pedir pelo fim. Não. Começarei pelo ponto para iniciar um novo parágrafo.

Pronto, assim. Agora está bom. Agora posso dizer que é um novo princípio. Ainda se vê o parágrafo anterior, mas não se foca nele. O que importa é o que eu escrevo neste instante; o que, daqui a algum tempo, alguém poderá estar lendo. O que importa é o parágrafo atual e o que está nele. O que importa são estas palavras que aqui se encontram, e não mais as que estavam sendo vistas anteriormente. Tornarei a repetir, portanto, neste novo e belo parágrafo: é agora que tudo começa? É agora que a vida começa? Depois do ponto?

Bem, sim e não. Ora, como é possível negar e afirmar duas coisas ao mesmo tempo? Como é possível estabelecer um paradoxo tão grande e, dele, extrair alguma resposta? Pois a minha fala continua a mesma. Sim e não; não e sim – vá da forma que preferir. Coloque a afirmação antes se for otimista, e a negação depois se for pessimista. Confesso que sou pessimista. Contudo, isso não muda o teor da frase. Depois do não ainda há o sim, o paradoxo continua. Tanto no pessimismo quanto no otimismo.

Espera aí... já estamos em outro parágrafo?

Sim. E agora mais outro. Já começamos um novo parágrafo. Ele foi gasto com uma pergunta que deveria ser simples, mas que acabou não sendo. Uma pergunta que nos tomou o tempo – e, também, as linhas. Voltaremos a ela. Qual era mesmo?

É agora que a vida começa?

Daí entrou a resposta paradoxal, estou certa? Sim e não. Sim porque uma nova era foi iniciada – como este novo parágrafo que agora começo. Não porque a vida começou há muito tempo. Começou lá na primeira letra que aqui redigi. Seja ela qual for. Ocupei-me o tempo colocando um ponto entre passado e o então presente; deletando as memórias antigas e perturbadoras. Mas, quando eu deveria estar aproveitando para criar novas, eu...

É agora que a vida começa?

Continuamos repetindo a pergunta até que, um dia, chegue enfim o ponto final. E, além de não termos a resposta... teremos parágrafos vazios de vida.

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por Malu Cotta, no fabuloso ano de 2016

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