é aqui que eu deixo fluir a imaginação

Covardia

8 de novembro de 2015

Era um momento estranho. Fazia frio, no entanto, nada era capaz de esfriar-lhe as emoções. Por dentro, continuava quente, tão quente quanto as lágrimas que de seu rosto desciam. Ou que dele gostariam de descer. Ela só não tinha a coragem, porém, de exprimir mais o que sentia.

Tanto falou que a coragem alimentava a alma, mas, no fundo, tanto se contradisse. Sua alma naquele momento só se corroeu. Ela não gostaria de perder aquilo que a deixava bem, e por isso se absteve de palavras. Absteve-se de problemas. Acumulou-os todos dentro de seu caloroso coração que, tão sobrecarregado, pôs-se ali a desmanchar em falsas lágrimas.

E quando ele não aguentou mais, ela recorreu às palavras. Palavras tão simples, tão mágicas, que acalmaram-lhe como ninguém nunca pôde.

Porque as palavras se importam; as palavras são as únicas que se importam.

À sombra

3 de novembro de 2015

O dia ensolarado olhava-me de lábios esticados, como se me recaísse a obrigação de nele me prolongar feliz. Eu odiava ter que levar tamanho peso nas costas – hoje, a menos, não. Hoje, eu não gostaria de brincar de boneca; de fantasiar-me e fingir que aos céus era um fantoche, uma subordinada à vida ideal que o calor me propusera. Hoje, só gostaria de me manter no silêncio da mente. Sob a sombra mais escura, eu sonho em sentar-me e, cabisbaixa, juntar forças para pôr-me de pé outra vez.

Descobrira há tempos que a aceitação nos quieta; pois então, que esteja ai minha premissa. O que as nuvens esperam de mim, não aceitarei. Contradirei o público, nem que esse seja só o espelho, e contente não me farei. Contente, far-me-ei quando, enfim, a minha mais profunda vontade triunfar.

Nem que o dia ensolarado me obrigue a aceitar.

Rouquidão

19 de outubro de 2015

Pousou-se uma cigarra no parapeito de minha janela. Cantou, ali, a melodia da chuva, e por um susto pensei que junto a mim ela iria ficar. Sua carcaça eu via só como um vulto, uma sombra perdida; sua presença, marcante, essa eu notava pela voz.

Mas, de alguma maneira, ela me trouxe à realidade como quem há muito só vagava na escuridão.

Ela cantou-me a alma magoada e anunciou-me a chegada da tristeza. Caíram as primeiras gotas de minha íntima tempestade; e foi quando ela me deixou. Fiquei, de repente, só. Vasculhei-me por companhias, no entanto, eu não sabia cantar. Não sabia, como ela que tão bem o fizera, extasiar-me os sentimentos. Não sabia trovejar as angústias, relampear os medos – nada sabia sem ter-lhe de guia.

Mantive tudo trancafiado lá dentro e, quieta, esperei.

Sozinha.

O despertar de minhas próprias emoções.

Ao fim

5 de maio de 2015

Andei alguns passos em direção ao mar e, pela primeira vez em meses, pensei em me atirar em meio às ondas, em esconder-me debaixo d'água. Quis me fazer de peixe, sim, como se meu habitat fosse distante da terra firme, que tanto me deixava mal. O que fiz, contudo, foi me sentar na costa de areia e fixar bem os olhos no ponto onde o oceano encontra o céu. Era ali que eu gostaria de estar?

Ali, a vida era mais fácil, eu não podia negar. Não havia vida, então não havia pessoas, portanto não havia sentimentos. Era o único lugar onde eu poderia me amar e só – sem me importar se os amo, se os invejo ou se os odeio. Sem me importar com os sentimentos que me corroem a alma.

Ali, minha alma permaneceria inteira e, sozinha, ela seria a única passível de me afetar.

Ergui-me, ainda sem tirar os olhos do horizonte. Fui caminhando pé ante pé, tal como um zumbi, um corpo morto hipnotizado pelas águas salgadas do mar. Meus dedos se enterravam na areia fofa até não poder mais; até as ondas alcançarem-nos. Minha saia longa elas molharam-lhe a barra; minha pele pálida se transformou em mórbida com a temperatura triste do oceano. E assim fui me matando aos poucos, enfiando-me no mar da solidão, afogando-me o último suspiro de vida.

Não cheguei a alcançar o horizonte.

Se eu o amo?

22 de fevereiro de 2015

Tomou-me os pensamentos como quem de um rico rouba-lhe os bens, dominando-me desde a carne até a alma. Tomou-me o fôlego como a asma lhe tira de seus enfermos, fazendo-me respirar apenas em curtas bufadas. Tomou-me o coração como de todos o maior dos ladrões, e este só não lhe peço de volta pois a vingança parece-me mais apetitosa...

Prefiro a todas as alternativas, roubar-lhe o seu.

Pois se isso não é amor, tal sentimento nunca conheci, tal sentimento menosprezo, tal sentimento subjulgo a quem não tem o dom de sentir o que sinto por você.

Pois se isso não é amor, o amor é apenas uma virgula no texto, uma gota no mar, uma estrela no céu.

Pois se isso não é amor, então não tem fim; pois se amor é o limite, então eu afirmo, convicta, que todos eles foram ultrapassados por mim...

Paralisia do sono

17 de fevereiro de 2015

Naquele momento em si eu o vi, com seus olhos oblíquos e profundos, revelar-se o interior e nada mais. Disseram-me seus lábios desejados o quanto desejavam-me, e na profunda antítese da vida eu o fiz feliz assim como me fizera, e como eu pensei que nunca me faria. Oh, mas eu o amo, o amo, e só. À sós, em meio às fantasias pensadas, imaginadas, e inexistentes de meu tão só eu. Pois sim, fora a solidão de minha inconsciência que, sob a temida falta de correspondência, ilustrou-o, na escuridão, só para mim.

E no fundo eu não me importo de tê-lo somente assim.

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2015

covardia 08/11

à sombra 03/11

rouquidão 19/10

ao fim 05/05

se eu o amo? 22/02

paralisia do sono 17/02

por Malu Cotta, no fabuloso ano de 2016

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