é aqui que eu deixo fluir a imaginação

Instâncias da mágoa

6 de junho de 2016

Não me cumpriria a índole deixar as palavras aqui não se encontrarem, muito embora a ninguém em especial queira eu que elas encontrem. De encontro a si mesmas já basta, e aqui a reflexão se põe escrita de tal forma que só lhe magoe a própria causa.

A decepção não nos deixa de estômago vazio.

Ela nos alimenta, nos enche, nos afoba. A ansiedade pelo novo nos atêm como uma bola de neve, e não há vazio que não se preencha pela busca incansável da razão. Essa é uma instância da mágoa que não nos mata – engorda. Engorda de tanto culpar o mundo, de tanto nos fazer de vítima, de tanto nos permitir ser em si uma desculpa. A decepção, essa, não nos deixa de estômago vazio.

É outra a causa das noites bem dormidas, da fome mal sentida: a mágoa pode ser culpa. A mágoa pode ser arrependimento. A mágoa pode ser pura e simplesmente mágoa, como a gota que cai dos céus ao chão inevitavelmente pelas ordens da gravidade. Mas essa pinga, essa preenche. Essa corta. Essa nos enche o estômago como se lágrimas já muitas houvessem sido tomadas, e nos mata por definhar-nos a carcaça fraca e faminta.

A fome é de alegria, a fome é de esperança; a fome aqui é morta, sutil, com a tristeza do olhar firme. Essa mágoa pura, ela é a verdade. E quanto mais da verdade provar, menos se desejará a ilusão da decepção.

E a verdade é que, em ninguém, pode-se confiar. Nem em si mesmo.

E é por isso que à nós só nos resta regurgitar as últimas mentiras que nos restaram no estômago.

História de amor

13 de junho de 2016

Não sabia o que era o amor.

Fazia-se flor para nascer quando ouvira a palavra. Algo a respeito daquelas letras, contudo, quando reunidas, deixavam-na petrificada, como se as pétalas que ainda não se abriram quisessem ali murchar. O que era amor, que não sentia? O que era amor, que não conseguia experimentar?

Um dia regaram-na; e, de tanta água, de tanta luz, de tanta paz, quis abrir-se para ver quem ali a cultivava. Deixou de ser broto, cresceu. E quem estava lá – era o amor? Era o amor que a fazia abrir-lhe os sentimentos, confessar-lhe as intimidades, permitir-se ser a frágil flor a que era destinada?

Não parecia ser o amor dos contos, quando ela o viu derramar-lhe a última gota – os contos não lhe disseram que o amor ia-se embora. Os contos não lhe disseram que o amor eventualmente a deixava frágil, sem luz, sem água, sem vida. Os contos diziam que na escuridão ele ficava. Que o amor superava toda e qualquer dificuldade.

Mesmo só, não murchou, pois não fora amor.

Como estava só, não se lamentou, pois fora para si mesma que se desflorou.

E ainda só, até o verdadeiro, verdadeiramente, chegar, se amou.

De verdade.

E foi à sós que soube – o que realmente significava – amar: cuidar.

E só.

Timing

5 de julho de 2016

O coração não para de bater porque você se pôs a dormir. Seus olhos não param de piscar porque você se pôs a chorar. Seus pulmões não param de respirar porque você se pôs a correr.

O seu mundo não para porque você precisa morrer.

Os segundos não param porque você precisa de um momento; as mortes não param porque você não aguenta a dor. Os sorrisos não param porque ainda há guerra – a guerra não para porque você quer amor.

As músicas não param porque você quer silêncio, a chuva não para porque você quer caminhar, o frio não para porque você ama o calor, as pessoas não param porque você quer andar.

O sentimento não para porque você resolveu terminar.

Então não, não há de haver timing.

(Ao menos enquanto ele ainda durar.)

É proibido fumar

16 de agosto de 2016

Apaixona-te por pessoas, ou por desafios? Fora ao calor fulguroso do tabaco que prendestes o teu vício, ou fora à tua postura frente aos não-fumantes? De uma forma ou de outra, aderiu-te à roda. Hoje te faz elegante e dos teus suspiros saem a prova – é o sinal de fumaça que aos outros lhes grita: já te ocuparam outra vez o coração. A sociedade incrimina-te por fumar, não obstante continuas a negar-lhe o palpite.

Talvez a rebeldia te acalente a alma mais do que o tabaco em si.

Seja o cigarro, seja a dama, agarra-te ao impossível. Queres ser sobrevivente, portanto privilegia-te o teu próprio egoísmo. Pergunto-me se é o fumo que amas; se em um mundo no qual não fosse condenado, continuarias a fumar. Pois se ao fim não te interessa cultivar o vício, só apenas provar-te o ponto, isso não seria real.

Fico pensando se tu se importavas com o que uma vez eu pensara. Se a ti fizestes diferença o que a mim seria cômodo. Se gostaras mesmo de mim, com todos os defeitos que vim trazendo-te.

Ou se, na verdade, era eu só o seu pequeno desafio.

Aquele cigarro que, um dia, proibiram-te de fumar.

Lenda idílica

4 de setembro de 2016

Expondo-nos à brasa de teus versos, derreteu-te o corpo no calor do sentimento e, das tuas palavras, fizemo-las poesia. Não éramos poetas, mas furtei de teu olhar brilhoso o instante no qual te acomodou os olhos em meu colo; sequestrei o nosso quando em que o silêncio se tornou a lírica do conforto. Senti-te o coração de criança bater o ritmo da nossa sinfonia, que, adocicada, fizera-me soltar um sorriso.

Era puro; fazia-te puro. A inocência da alma te encharcara a vida, e a pureza era, em ti, várzea. Cobri-me contigo debaixo das cobertas, ainda sem imaginar o que seria sentir frio. Amavas-me com apesares; amavas-me independente.

E era a tua incondicionalidade que eu amava mais em ti.

Se utopicamente vivêssemos a tua essência, talvez ainda viéssemos a existir.

Incondicionalmente.

Passeio à dois

12 de outubro de 2016

Suas pupilas ardilosas mordiscaram-me a lembrança.

Adentro delas, mergulhei.

E, assim, aqui se narra a história de como, faz-me biologicamente robótica, aquilo que algumas vezes eu martelei.

O vento em meus cabelos que eu sentira, ali, girando naquele carrossel, que me fez em dejavú rememorar o que um dia foi. Parecia que o ontem era fotografia bem-feita, mas que o passado antigo e o hoje de alguma forma se tangenciavam no espaço-tempo. Em um suspiro já estávamos em um novo loop, mas ainda cada um em seu cavalo. O parque era o mesmo, as pessoas eram outras, mas novamente via-te em sincronia.

Tempos diferentes, respostas iguais – queria eu ser quem fui. Era o barulho da sacola, o plástico sendo desdobrado, que atiçava na cadela a vontade de ir passear. Todos os dias, o dono apanhava uma sacola, pegava-lhe a guia, e a levava. Todas as vezes em que escutava a sacola, ela se preparava.

Naquela volta, o vento levou alguns dos fios de meu cabelo para trás. Expôs-me nus o pescoço, a clavícula, o ombro. Vi-te no cavalo do lado, assim como vira-te no loop passado. Como o barulho da sacola, eu me preparei.

Suas pupilas ardilosas condicionaram-me.

Era tua em condição.

Hoje só tenho vontade de passear.

Descarga

18 de setembro de 2016

Curioso-me a saber se é debaixo da chuva que, na frente, olharei para trás; pois na atualidade as sombras me espetam o coração. A melancolia nebulosa faz-se teto de meu lar e, com pés descalços, eu adentro a caverna inundada pelas minhas próprias lágrimas. Parece intensa a dor, vestida de drama, mas só lhe é pura. Só lhe é dolorosa.

A eternidade dura muito pouco.

Sento-me no primeiro canto que vejo me caber o quadril, e dali noto na parede da caverna as memórias penduradas como obras de arte. “Por que nos atrevemos a tirar fotos dos instantes se, depois, recordá-los é tão infame?”, murmuro. Era quase como cutucar a ferida, instigar um assassino, saltar do décimo primeiro andar sabendo da própria incapacidade de voar.

“A felicidade te incomoda?”, era um dos meus fantasmas que havia respondido. Seus olhos grandes olhavam-me passivo-agressivos, pretendendo me atacar sutilmente por trás do sorriso dócil que seus lábios carnudos expressavam. A saudade daquela revolta pacífica, essa não me irritara a maré.

“Não é a felicidade,” viera o outro, aquele cuja covardia nem me permitia apelidar-lhe de fantasma, “é o fim”. Sua postura era firme; seus olhos, no entanto, não aguentavam a pressão de olhar-me nos meus. Como sempre, fugia-me à percepção, e a onda não era capaz de chegar à costa por nem sequer me bater uma brisa.

Ergui-me astuta sem me importar com os pés molhados e, de cabeça erguida, só fui capaz de soltar uma risada. Não era a felicidade que me incomodava, pois ela vinha de várias maneiras, e eu não precisava me ater ao passado para dela ter prova. Não era também o fim, pois deste já sobrevivi a vários, e como soldada ainda me mantenho sã.

“O que me incomoda é a decepção”.

E como um maremoto minha mente fez caverna, quadro, fantasma, água: tudo, desabar ao chão.

A nostalgia, ela nos persegue até na ascensão.

Um suspiro

20 de junho de 2016

Quem descobriu o sim, nunca imaginaria que ele pudesse ser sinônimo do não. Que a falta pudesse ter tanta sobra; que o nada pudesse ser tudo. Que o estranho, o anônimo, pudesse ser, afinal, tão familiar. Que a frieza pudesse ser tão calorosa.

É como se ali estivesse o meu mundo novamente. Construído dos pés à cabeça, arrancando-me o sorriso e a vontade de arriscar. É como se meu corpo quisesse tremer-se todo outra vez, voar por entre as especulações e me ser a grande dúvida agradável que, ao mesmo tempo, prende e liberta.

Mas não é, não é o meu mundo.  É, na verdade, um mundo que desconheço, pelo qual não tenho lá tanta afeição. É uma interrogação diferente da que antes me instigava; é uma dúvida que na realidade eu não gostaria de tirar. Permite-me a mim controlar-me, minha postura firmar-me e, minhas expectativas, nem se levantarem. Gruda-me ao chão e ali fico, como se não me fosse nada.

Embora a memória ainda me lembrasse que é, afinal, o mais próximo que eu chegarei do que me foi tudo.

E se é sim e não, então com ele vou-me em vão?

Nenhum título resume

24 de abril de 2016

Como quem já crescera com a dor lhe latejando os pés, aprendi a caminhar crendo que os contos de fada só narravam mentiras. Desde os príncipes, até as princesas e ademais os finais felizes, nada se fazia palpável. O que era o amor verdadeiro em um mundo de separações? O que era a felicidade perante tanta decepção, amargura, desentendimento? O que eram as pessoas frente às falsidades e às despedidas?

Já cedo sabia que nada era duradouro, nem a alegria, nem o sentimento, nem os outros. Tudo o que me restava era entender o lado bom da mágoa, aproveitar cada suspiro e não me ater a ninguém, em hipótese alguma. Só que a tarefa é árdua, quase que impossível – seria talvez da índole humana contradizer todas essas premissas? Não sei. Mas não fui capaz de seguir meus próprios mandamentos, e em cada etapa encontrei-me com uma frustração.

Era tarde demais para refazer-me os passos, no entanto, pus-me a compreendê-los. E foi aí, em meio às especulações que tinha, às verdades que vi... foi aí, em meio a tudo isso, que eu enfim entendi os contos de fada. De fato, eles a mim não mentiam. Eles só me mostravam o que realmente importava: há sempre finais felizes.

Os príncipes e princesas poderiam ir-se eventualmente, mas por um tempo nos foram bons. E na posterioridade sua ausência se fará boa, também. As decepções, por sua vez, só aparentavam ser terríveis – no fundo, entretanto, elas nos mostravam as verdades que antes éramos incapazes de ver. Faziam-nos fortes, sábios. E os outros, por mais que se vão, sempre cumprem conosco o papel que a eles fora incumbido. Eles se vão porque até nós mesmos, no fim das contas, também vamos.

Tudo é efêmero.

E se tudo é efêmero, não há porque temer o erro: as tristezas são felicidades disfarçadas de aprendizado.

Uma conversa com um sr. Ninguém

5 de abril de 2016

Sentou-se enfim ao meu lado como quem nunca por outras vidas houvesse viajado e, sem dar-me uma única palavra de satisfação, a mim mostrou as gengivas de tanto sorrir, rir e divertir.

- Por que está rindo? – meus lábios desenfreados logo soltaram, não sei se secamente.

Ainda risonho, voltou aqueles seus olhos estrelados para mim. Há quanto tempo eu não via aquela galáxia inteira? Já nem me lembrava mais.

- Bem, porque é engraçado – ele começou, endireitando um pouco o jeito moleque – É engraçado o quanto as pessoas, às vezes, nos confortam mais do que nós mesmos.

Eu engoli em seco.

- Isso não é engraçado. Isso é triste – meus olhos focaram-se no horizonte, não sendo mais capazes de fitar-lhe os dele.

- Mas a graça está aí... – suas palavras pelos ares dançaram, soltaram piruetas, e enfim reencontraram a firmeza: – A graça está nesse conforto trágico, que um dia nos deixa à sós. Pois quando não nos resta mais o outro para nos confortar, a quem devíamos confiar os desabafos sobre a solidão?

Tornei a atenção para seu rosto novamente. Ele empalidecia-se. Seus olhos, já vazios, não me guiavam mais pela via láctea. Eles eram o escuro, o vão, o vazio. Seus traços, por sua vez, em muitos outros perdiam-se, até que não se faziam mais traços, mas sim confusão. E assim ele ia, aos poucos, desmanchando-se perante mim, desfazendo sua unicidade, e transformando-se em pó.

A graça por fim entendi: ela estava naquela miragem, que se formara ridiculamente para mim – não pela saudade, não pelo apreço, mas pela confiança. A confiança que um dia existira, até ser deixada, junto a muitas outras, naquele vão.

E, afinal, a quem posso relatar-me a solidão?

Se não a uma ilusão?

O texto que me obriguei a escrever mesmo sem inspiração

27 de março de 2016

Se não me dissessem os calendários, nada disso me atordoaria. O badalado do relógio, o alcançar da meia noite, a perseguição dos ponteiros – o que seriam eles, se não fossem os calendários; o que seriam senão um instante qualquer?

Reservei-lhe este instante qualquer, deste dia peculiar, para escrever algo que não sei. Algo que não me passa pela cabeça, uma vez que não me é mais nada. Gostaria de dizer-lhe que é; gostaria de aqui colocar palavras bonitas, assim como eu o planejara fazer tempos atrás. Mas não adiantariam ser registradas, aqui, palavras bonitas, se não o fossem verdadeiras.

É por culpa disso que hoje aqui lhe escrevo o vazio. É tudo o que me resta – ou melhor, é tudo o que nos resta. Os planos que nos encontraram aos pés da janela, hoje, não mais se concretizam, mas sim fazem-se memória. Hoje é páscoa; hoje é renascer, hoje é ressuscitar. Hoje é o dia que um novo eu se levanta, um novo você se ergue. Hoje é o dia que nos recriamos.

Nos recriamos em desencontro.

E, assim como lhe agradeci pelo encontro, hoje lhe agradeço pelo adeus.

Sofrimento

29 de fevereiro de 2016

São seus olhos pulsantes que lhe denunciam.

Existe um fogo latente em suas pupilas, um brilho que nos ilumina com fervor. Seu corpo é solto, sua alma se derrete. Vejo-lhe estagnar-se enfim ao presente, como um nômade que aqui se acomoda, e não querer nada mais. Só querer isto aqui, este momento, este instante.

Nada mais lhe passa pela cabeça, eu sei.

Nenhuma preocupação, nenhum problema.

Pela primeira vez, sua mente não lhe foge aos tempos: você não resiste ao atual. Não se consola com o que será, não se aflige pelo que foi, apenas quer saber o que é. Seria incapaz de, ao passado, voltar, ou de, ao futuro, fugir, caso lhe atingissem. Está enraizado, de corpo mole, inerte.

Está aqui, entregue.

Abre um sorriso, inquieta-se o corpo. Revela-se tão frágil que uma brisa lhe poderia quebrar as pernas.

Abre brecha para o riso, quieta-se de novo. Revela-se tão fácil que, em seus olhos, vejo-lhe as saudades eternas.

De coração apertado, pensa, porque não?

Mas trava.

Pois teme.

A sua própria.

Paixão.

O passado presente

27 de fevereiro de 2016

Meu amor é fotografia.

Em nosso álbum de fotos, vejo-lhe a sombra instável me afagar o coração. A cada foto passada, seu semblante a ela lhe tingia uma nova arte.

Meu amor já foi quadro, já foi música, já foi filme. Meu amor já foi texto.

Ele era espontaneidade – e eu gostava de sua mutabilidade.

Gostava de como me fazia rir pelas manhãs, de como me levava os pensamentos pelas tardes, de como me apertava o coração pelas noites. Eu gostava da sensação de ter sua instabilidade ao meu lado, de acompanhar o mistério de seus atos. De ser-lhe, junto a ele, o outro lado da balança, o outro ponto de interrogação da dúvida.

Mas, hoje, ele é fotografia. Hoje ele é atual, mas não é presente; hoje ele é fato, mas é ficção. Hoje ele me tem pelo que foi, mas me perde pelo que é.

Meu amor existe, meu amor vive. Meu amor lhe procura a áurea, que em fotografia está impressa. Meu amor lhe procura a essência, que por tantas artes já passou. Meu amor lhe procura, mas você não mais é o mesmo.

Pois você existiu, você viveu.

E a mim só me resta sentir falta daquela época, em que eu gostava de lhe chamar de meu.

Recaída

22 de fevereiro de 2016

Eu já estive aí, e temo por você.

Não negarei que, quando ouvi seu adeus, o peito, a dor me apertou – contudo, a vitória do luto logo alcancei, e a isso não me ative mais. Aprendi a dar meus próprios passos, a conduzir-me, sozinha, a dança e, na solidão, encontrei-me um outro par – eu? A saudade, aos poucos, foi sumindo, e só o apreço se manteve.

Era um grande apreço. Não lhe desmereci em momento algum; em meu coração, sempre lhe restaria uma brecha. Não a brecha romântica, a amorosa, não, mas a brecha poética que os românticos tanto sentem restar. Um sentimento de amor do mais puro, do mais lapidado, que, excluídas a paixão e a posse, sobrava em minha alma.

Foi quando lhe vi o caminhar. Era incerto. Sua fala dizia tudo bem, mas, seu tom, clamava tudo estável. Você não era estável; você era como o sol, que a cada segundo resolve iluminar um lugar diferente. Você era como o vento, que movimenta as vidas alheias. Você era como eu: uma inquietação profunda, presa a um cercado limitante.

Não lhe reconheci mais. Se esse fora o motivo de seu adeus, já lhe digo: descarte-o. Arranje outro, pois sua validade chegou, devastadora.

Encontre outra solução, pois o seu silêncio já se transforma em grito.

Acredite.

Eu já estive aí, e temo por você.

Mais uma premiação

15 de fevereiro de 2016

Se a premissa já era boa, não me surpreende o trailer nos ter cativado tão profundamente. Parecia tudo incrível; um desafio tentador, uma conexão inquebrável. Com o tempo, nós não éramos mais os únicos a quererem ver o produto completo – todos já se ansiavam pelo que estava por vir.

O filme, contudo, dirigimo-lo mal.

Mas do que se importa? Do que se importa se não colocamos muito de nós em suas cenas? Do que se importa a falta de ação? Do que se importa a fraqueza da história...

...se, no fundo, o salvava, a atuação?

Não sei dizer por você, mas a minha se destacou. Assumi um personagem e seu papel cumpri tão bem que, dele, quase não consegui sair. Inventei minhas falas, minhas crises, minhas dúvidas. Desenvolvi gostos pelo que antes não me atraíra jamais. Recriei diversas vezes um sentimento que, outrora, nunca em mim se manifestara, porém que, para você, eu inventara. Transformei-me em alguém que nunca fui, alguém que nunca serei – mas alguém que por aí talvez exista, e que, quem sabe, um dia possa, até você, chegar.

E amar-lhe como nunca, verdadeiramente, amei.

Enterrando esse nosso filme onde, um dia, você, eu enterrei.

Para sempre.

Atuação

15 de fevereiro de 2016

De pernas trêmulas, coração apertado. Suando frio, petrificada. Tentei gritar, mas o timbre da voz já não mais me pertencia – ele era seu.

E foi quando a adrenalina me levou às alturas, como se daquela aventura não quisesse, jamais, sair, eu.

Seus pés, suas mãos, seus olhos, seu sorriso. Sua aura, seu suspiro.

Você.

Com todas as letras, você – você era a vista.

Você me construía, me desconstruía, me reconstruía. Você se fazia de fogo, e por você eu derretia. Você era o oxigênio que aquecia meu pulmão; você era a voz que me fazia perder a ação.

Você era, sim, minha paixão.

Em algum lugar, na minha mais calorosa imaginação.

Onde nos desenhei assim como precisava, assim como idealizava.

Onde apaguei toda a minha dor.

Com todo esse teórico amor.

Que nunca nem sequer me estalou...

O coração.

Sinal

10 de fevereiro de 2016

Às vezes, na escuridão, pergunto-me se sou a única a me sentir assim. Eu nunca gostei de ser fraca, contudo, as sombras de nosso passado, a mim, jogam ao chão. À elas, rendo-me, como se deste sinal vermelho jamais me coubesse ultrapassar. Como se ali eu tivesse de ficar, por toda uma eternidade, apenas esperando. Esperando-lhe, novamente, atravessar.

Mas não atravessará; esta rua, sei que você teme. Sei que nunca cruzará a esquina que sempre encontrou nossos caminhos, uma vez que seus receios lhe impedem de cometer os mesmos erros. Eu fui um dos seus, sei que fui. Fui um dos erros que sua fragilidade permitiu-lhe cometer. Eu fui a consequência da regra que você infringiu.

E é por isso que, na escuridão, pergunto-me.

Será que sou a única a me sentir assim?

Quieta, eu espero, na esquina, o sinal abrir. Todas as memórias que temos grudam-me ao asfalto à sós. Não te avisto. O carro, engreno, ansiosa. Talvez eu não consiga arrancar tão rápido – porém, quando eu o fizer, não haverá outro cruzamento em que eu me permita parar.

Nem que seja para, você, encontrar.

Uma outra vez.

Eu odeio poemas

31 de janeiro de 2016

Encontrei sua lente de contato

No chão do meu quarto

E me bateu a saudade

De quando éramos de verdade

 

Mas agora eu sei

Que o passado nunca terei

Pois o seu olhar

Nunca mais vai voltar

 

Ah, como eu pensei na loucura

De, a meus olhos, encontrar a cura

E vestir sua lente

Pra ver o que você sente

 

Mas não consegui

Da janela, atirei as memórias

Esqueci sua voz

E nunca mais voltei a rimar.

você está em

2016

passeio à dois 12/10

descarga 18/09

lenda idílica 04/09

é proibido fumar 16/08

timing 05/07

um suspiro 20/06

história de amor 13/06

instâncias da mágoa 06/06

nenhum título resume 24/04

uma conversa com um sr. ninguém 05/04

o texto que me obriguei a escrever mesmo sem inspiração 27/03

sofrimento 29/02

o passado presente 27/02

recaída 22/02

mais uma premiação 15/02

atuação 15/02

sinal 10/02

eu odeio poemas 31/01

só friezas 23/01

tesouro 17/01

Só friezas

23 de janeiro de 2016

De repente, de um dia para o outro, não me restam mais de seus abraços para esquentarem-me a pele – mas o frio, como um de seus beijos no pescoço, também me faz estremecer. O frio me faz querer enrolar-me debaixo das cobertas, assistir um filme, jogar-me sob a água quente do chuveiro. Eu poderia muito bem dormir um pouco mais pela manhã; eu poderia me esquentar pelo vapor da sauna.

É o frio que lhe tem substituído tão bem.

O frio não gosta de mensagens; ele só me olha, me toca e a mim sussurra tão bem pelo soprar dos ventos. Ele não prefere o virtual, ele opta sempre pelo real, e por isso estamos sempre juntos. É um amor que não acaba, uma química que perdura.

É o frio que lhe tem substituído tão bem.

Se lhe substitui tão bem, não vejo por que lhe preferir a este. Não vejo por que chorar toda noite, esperando o seu retorno. Não vejo por que sentir falta do que era, do que sempre foi, e do que não é mais. Não vejo por que sofrer tanto com as conversas vazias, os assuntos inacabados e a monotonia dos nossos encontros.

Pois se o frio lhe substitui tão bem...

Não entendo certeiramente, mas assim continuo agindo. E é sob a companhia do frio que aqui registro minhas mágoas por, apesar de tudo, não saber bem como estar com você.

Tesouro

17 de janeiro de 2016

Começou no dia em que largou-me para, à sós, nadar.

Logo tudo parecia vazio, como se o oceano me houvesse perdido de você. Não havia mais visão da costa de areia, só a vastidão do nada. Ao meu redor havia tanta água, mas tanta água, que naquele dia passei a não gostar mais do mar. Ele me afogava. Ele me sufocava por dentro.

Amanhecia, escurecia, e eu não sabia de você. Não conseguia descobrir se vinha para buscar-me ou se, no fundo, já tivesse de mim desistido e esquecido. E a cada silêncio, a cada suspiro, eu me matava mais por dentro – pois ao infinito, de companhia, restava-me apenas a solidão.

A maré ia subindo, e para isso não nego que também contribuía. Desidratei-me em prol das ondas, e por elas fui me acobertando até não mais conseguir ver.

Parei de procurar-lhe por ser incapaz.

Descobri, então, submersa, que não sabia mais como era a vida em terra firme – e talvez nem estivesse pronta para voltar. Fui, portanto, aos poucos, morrendo.

Até você nunca mais conseguir me encontrar.

por Malu Cotta, no fabuloso ano de 2016

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