é aqui que eu deixo fluir a imaginação

Prólogo

Acredito que a efemeridade da vida possa, um dia, tomar-me a chance de relatar o que devo. Serei breve nesse prólogo, pois sei que, se for demasiadamente explicativa, o dia que prevejo pode chegar e, a morte, pode se fazer de minha amiga. Vejo-a como quem vê a lua ao fim de tarde e daí já imagina a noite, deduz que ela será cheia e faz planos para, sob seu luar, talvez com companhia, contemplar-lhe o brilho. Sinto-me com os segundos contados. Observo a lua, como se me fosse o fim da vida, e espero o momento em que, nos céus, eu a possa contemplar ao lado de quem quero.

Por isso, serei o mais breve possível ao contar-vos o que desejo. Tenho de fazer este relato, porque, caso contrário, talvez vireis a cometer os mesmos erros que eu; os mesmos erros que me trouxeram até aqui. Pois começarei pelo princípio, pulando tudo o que antes me era ordinário, e partindo do instante em que meu mundo se dobrou.

Não me achais, portanto, estranha.

Mas o que se segue é a história de minha vida.

A partir do dia em que eu a perdi para o destino.

Passado, presente e futuro. Todos interligados, todos comunicando entre si fervorosamente. Penso que os conheço. Ouço os farfalhares já ditos, as decepções sendo gritadas e as lágrimas que cairão. Escuto o barulho de um sorriso, a melancolia de uma perda e, também, o tédio de uma aula de matemática. Vejo os sons das águas de um rio, correndo, voando, chiando por entre as rochas que mal se escondem em função da transparência do que por ali percorre. Eu sinto a textura do amor, da dor, da vida, da morte. O primeiro é maleável, o segundo firme, o penúltimo rugoso e, o último, enfim, é gosmento, grudento, opaco, e quem o toca, dele não mais se livra.

O tique taque continua, e minhas previsões afervoram-se. Eu guardo o gosto do destino desflorando-se, aos poucos, na minha sonhadora imaginação. Faz-se dele o que quer minha mente, que com ele brinca e o manuseia tal como se fosse um brinquedo. Não obstante saiba tratar-se de um perigo, assim continua. Por fim, queima-se; e, com as mãos chamuscadas, sofre por ter a ingenuidade de tocar no fogo achando-se um bombeiro.

Conclui-se o cenário sempre da mesma maneira. A dor passa. A cicatriz fica. O tique taque permanece e, a imprevisão, também.

Capítulo 1

Sonhei com o mesmo de sempre naquela noite.

Fazia frio. Eu mal conseguia ver o que se dispunha ao meu redor; as imagens corriam perante meus olhos como borrões em movimento. Sentia meus pés, que corriam em uma velocidade que eu nem imaginava conseguir alcançar, irem de encontro com a terra molhada a cada passada. A sensação do vento úmido me levando os cabelos parecia-me tão real quanto a que eu tinha, anos atrás, quando brincava no balanço no jardim da minha casa.

De repente, um clarão ocupou o lugar dos borrões. Notei que estava pisando em madeira polida; senti o cheiro agradável de pinho e lenha queimada. O calor de uma lareira aqueceu meus pelos   que, eriçados, já reclamavam do frio. Ouvi alguém ofegar de cansaço e, em seguida, um bater de portas fez meu coração saltar do peito. Uma imagem desfocada enfim me permitiu ver a cena: um rapaz, provavelmente um palmo mais alto do que eu, curvava-se para frente, de costas para mim, e, com as mãos apoiadas sobre os joelhos, respirava mais alto do que os estalos do fogo na lareira. Suas roupas não estavam nas melhores condições – e aquilo estranhamente não despertou meu TOC perfeccionista – e seus cabelos pareciam umedecidos. Não sei por que, mas eu sabia que era madrugada e que estávamos ensopados pelo sereno.

- Temos algum tempo – sua voz grossa me disse, ainda sem se virar para mim.

Algo tampou minha audição neste instante. Não ouvi minha resposta, apenas sei que eu me aproximei e o abracei. Não vi seu rosto, apenas me lembro de que seus olhos eram azuis. Não entendi o que aconteceu em seguida, apenas consigo interpretar a cena que sucedeu esta.

- Está certa disso? – ele me perguntou bem baixinho; seus lábios roçavam nos meus – Mesmo que isso lhe tome a vida?

Mas eu não o respondi; eu agi. E então, nós, sujos, imundos, molhados, descalços, beijamo-nos sem nos preocupar em estarmos sujos, imundos, molhados, descalços.

Vai entender.

Contudo, algo despertou ainda mais a minha atenção. Não era mais o meu TOC adormecido que me impressionava – estranhamente, aquele beijo era diferente. Ou melhor, ele era normal. Ele não tinha aquele gosto que eu normalmente sentia quando beijava alguém. Não tinha gosto de sangue.

Então era por isso que o TOC não se manifestava, é claro – eu finalmente conseguia beijar direito!

Mas então veio a parte com a qual eu não consigo me conformar. Tudo foi perdendo a vida. Tudo foi perdendo a graça. Senti como se algo estivesse me esmagando por dentro; era uma dor tão ruim quanto a morte. E, por fim, tudo se apagou.

E eu acordei naquela manhã ensolarada de segunda. Era o meu primeiro dia de aula.

O despertador gritava em meus ouvidos de maneira alta e estridente os dizeres de meu melhor amigo, Felipe, ou, como eu prefiro chamá-lo, Vip, o maior gênio do mundo. Digo que ele era um gênio por causa desse toque incrível que ele havia criado para me fazer acordar. "Levanta, sua vagabunda, vai fazer algo que preste na vida". Eu não sabia que ele havia mudado meu alarme até aquela manhã, quando eu praticamente caí da cama de susto.

Praticamente não. Eu realmente caí da cama.

Alguém morreria ainda naquela manhã.

- Marcela! Desliga essa porcaria! – minha tia Clara gritou de seu quarto; ela parecia bem nervosa, como sempre. Meu celular deveria tê-la acordado também.

Demorei algum tempo para me dar conta da realidade. Era cedo; o sol matinal passava por entre os fios finos da cortina quase translúcida do meu quarto. A janela, entreaberta, permitia um vento frio flamejar os panos que tentavam cobri-la. Estávamos em agosto, retornando às aulas, e eu mal podia esperar para colocar o uniforme e sair naquele friozinho de início de segundo semestre.

Para terdes noção, a minha felicidade para levantar cedo era tanta, mas tanta, que eu preferi voltar a dormir sobre o chão gelado, ainda escutando a voz galanteadora de meu amigo dizer "Levanta, sua vagabunda...".

Sejais bem vindos, caros leitores, à minha vida incrivelmente agitada. Sou badalada inclusive nas segundas-feiras de manhã.

Um barulho estrondoso de porta se abrindo me fez dar um pulo, tal como um peixe fora d'água. Dois sustos em menos de dez minutos é um recorde definitivamente inquebrável.

Ergui meus olhos e vi minha tia Clara se apoiar na maçaneta.

- Eu devia estar bêbada no dia em que aceitei me tornar sua responsável legal – ela encarava-me com desprezo; quanta meiguice – Sorte da sua mãe que está morta e não tem que conviver com uma adolescente irritante todos os dias.

Essa era a frase favorita dela; tia Clara fazia de tudo, tudo, pra eu me sentir a sobrinha mais amada de todo o universo. E, embora o teor de sua fala fosse um tanto pesado, eu não pude conter meus risos abobados de "acabei de acordar". Ela estava incrivelmente linda naquele dia: seu cabelo estava preso em rolinhos, o rosto coberto por uma camada grossa de um creme verde esquisito, a camisola de seda a apertava tanto que a fazia parecer um colchão amarrado.

Clara Bündchen, a modelo de camisolas mais bonita do Brasil.

Ela pode ter ficado um pouco nervosa com minhas risadas, visto que invadiu meu quarto com seus passos de ogro e desligou por si só meu celular. Jogando-o contra a parede. É, funcionou.

- Nem comece. Levanta essa bunda do chão e vai se arrumar. Eu não quero festa fúnebre para esse seu tijolão.

E foi-se embora, deixando pingar gotas de seu creme de origem indefinida no chão. Eca. Eu é que não limparia isso.

Mentira que eu limparia sim, tenho TOC.

Ergui-me ainda sonolenta e soltei um longo bocejo. Aquela manhã seria cheia. Esfreguei os olhos, tentando aprimorar a visão, e foquei-os no celular espatifado no chão. Ela o havia quebrado. De novo.

Suspirei, já acostumada com a situação, e fui me arrumar no banheiro. Sempre que minha tia ficava com raiva de mim, era meu celular que sentia sua ira. Já cheguei atrasada uma vez e o tive confiscado – para toda a eternidade; já acidentalmente queimei uma das blusas de meu uniforme ao passá-la com ferro quente e, bem, acabei vendo minha tia "brincar de desmontar o celular da Marcelinha" – era como ela se referira à suposta brincadeira. Já o vi sendo levado pela descarga quando eu me esqueci de lavar o banheiro – ela era muito criativa, tenho que confessar.

E é por isso que eu nunca compro celulares bacanas. Nunca.

Inspirei fundo e lavei meu rosto com água fria. As gotas refrescaram-me a face, a mente e a alma; eu enfim acordei. Foi quando eu fitei meu relógio de pulso dourado, que antigamente pertencia à minha mãe. Eu estava dez minutos atrasada.

Bacana.

Apressei-me pela casa. Engoli as roupas do uniforme, escovei os sapatos, calcei os dentes e vesti o café da manhã. Minha cabeça ainda não assimilava os fatos, os atos e o dia que clareava além das janelas de vidro. Eu só conseguia pensar em meu atraso, na falta de meu celular e naquela gota de creme verde que estava sujando o meu chão impecavelmente limpo. Não havia tempo para sentido.

Preparada para sair, eu deixei minha casa para trás. Eu morava em um bairro central, mas em uma casa que ainda não havia sido vítima da verticalização – e provavelmente não seria, ela era tombada pelo patrimônio histórico cultural. Uma vez pertencera a meu bisavô, que a passou para meu avô, que, por sua vez, deixou-a para meu pai, seu único herdeiro. E agora ela estava nas mãos de minha tia, que me era parente pelo sangue materno e não tinha uma única relação com a casa, embora agisse como se fosse dona de tudo o que ali havia – incluindo meus celulares. Mas isso só duraria até eu atingir minha maioridade, é claro.

Desci as escadas da frente e atravessei o jardim. Fiquei a observar o sol, as flores e o balanço que meu pai me construíra quando eu era bem pequena. Tinha poucas lembranças dele, tal como de minha mãe. Mas essas poucas lembranças, inclusive a do acidente que lhes tirou a vida, não me fugiam da memória. Elas me visitavam em meus sonhos quase todas as noites, não me deixando, por um segundo sequer, seguir em frente. Não sei também se queria, aliás, não sei se estava preparada para tal.

O escolar já me esperava parado à porta. Foi só eu entrar no micro-ônibus que eu vi meu amigo sentado no nosso banco, o segundo de trás pra frente.

- Bom dia! – sorriu com os dentes; seus olhos verdes brilhavam para mim – Acordou bem?

- Ah, claro – ironizei. Ele se afastou para mais perto da janela e eu me sentei ao seu lado – Só não me mande mensagens. Ou me ligue. Ou resolva, sei lá, se comunicar comigo via celular por umas três semanas.

Ele franziu os lábios.

- Foi mal.

- Sem problemas – dei de ombros – Mas vai precisar recompensar. Está me devendo uma.

O carro fez uma curva fechada e me jogou para cima dele, espremendo-o contra a janela. Ele soltou algumas risadas.

- Engordou no fim de semana, é? – disse em meio ao riso.

- Agora está me devendo duas – sorri cinicamente e, abaixando o tom, eu completei: – Vip, eu sonhei com aquilo de novo essa noite.

Ele suspirou.

- Mas que novidade – e ficou sério até demais – Acho que você devia ir a um psicólogo analisar isso.

E então eu vi que ele estava debochando de mim. Como sempre.

- É sério! Eu estou cansada desse sonho, eu sonho com a mesma coisa praticamente todos os meses desde meus doze anos – rebati.

Ele uniu as sobrancelhas.

- Espera um pouco... – e ergueu a mão à altura do queixo – Hoje é que dia?

Estranhei a pergunta, mas o respondi.

- Três. Três de agosto – meus lábios formaram uma reta perfeita – Primeiro dia de aula, seu idiota.

Todavia, ele ignorou meu insulto e disparou a argumentar.

- Eu estava indo viajar no mês passado quando você sonhou com isso. No dia três – como não vi aonde ele queria chegar, ele continuou: – Você me contou isso no aniversário da minha mãe, há três meses, no dia três.

Olhei-o nos olhos.

- E daí? Coincidências – rolei os olhos – Você está falando como se meus sonhos fossem tipo um ciclo menstrual.

Ele riu.

- Pode estar interligado ao seu ciclo. Bem que eu reparei que você está inchada... – e mediu a gordura do meu braço fazendo uma pinça com os dedos. Eu bati em sua mão, e ele grunhiu. – E irritadinha.

- Irritadinha eu vou ficar.

Ele apertou minha bochecha e disse:

- Coincidências te perseguem, Cel – e se tornou para a janela.

E realmente me perseguiam.

O escolar parou poucos minutos depois na porta tumultuada do colégio. Estudantes indo e vindo, segurando seus livros, vestindo as cores azul e cinza da escola se aglomeravam tal como formigas na entrada de um formigueiro. Muitos não tinham direção exata, vagando pela calçada; outros, certeiramente, adentravam pelo portão sem nem ao menos olhar para os lados; e ainda haviam aqueles que, parados, papeavam sem compromisso antes das aulas começarem.

Como era bom voltar ao lugar que, a partir dali, tornaria a soar mais como um lar do que minha própria casa.

Desci ao lado de meu amigo, que, como de costume, segurou a porta do micro-ônibus para mim. Alcançamos enfim o passeio, lado a lado, ainda calados. E foi naquele exato momento, naquela manhã, naquele dia tão ensolarado, mas tão vazio de calor, que um belo de um pombo deixou suas necessidades inóspitas caírem no meu pulso. E bem em cima do relógio de minha mãe, ocultando todo o vidro que me expunha as horas.

Isso é o que eu chamo de sorte.

- Bosta – exclamei com um tom espontâneo.

- Literalmente – ele completou – Vamos, eu te acompanho até o banheiro.

Deixei as sobrancelhas caírem por sobre os olhos.

- Como é? Vip, caridoso? – indaguei.

Ele forçou o riso enquanto passávamos pelo portão principal.

- Não. Agora eu só te devo uma – e sorriu expondo todos os dentes à mostra.

Eu rolei os olhos e, sem dizer nada, entrei no banheiro feminino enquanto ele me gritava "boa sorte, você está precisando!". Ele definitivamente iria descobrir logo o que era falta de sorte.

Fechei os olhos e deixei um suspiro escapar quando parei perante o espelho. Aquela manhã já me esgotava a paciência; tudo o que eu queria era permanecer ali, de pálpebras cerradas, mente aberta, respiração extasiada. Mas eu não poderia, o tempo não me era tão vasto. Assim, deixei a visão despertar-se de meu torpor; e acabei, por sua vez, tomando um susto ao ver a imagem refletida no espelho.

Havia uma jovem loira, dos cabelos cortados rente à nuca, e olhos negros expressivos olhando-me em retorno, no lugar de minha própria reflexão. Sua pele era tão pálida quanto a morte; seus lábios, frios e inertes, colocavam-se entreabertos. Uma gota vívida de sangue descia-lhe dessa fresta, parando no limite da concavidade do queixo. Era como uma tinta escorrendo de sua boca e pintando-lhe a morte, que costuma ser opaca e triste, e nunca vívida e colorida.

Meu coração saltou-me do peito, mas a figura não me atormentou por muito tempo. Foi apenas um relance pouco duradouro, como um piscar de olhos, mas que marcou minha memória e entrecortou minha calma respiração. Dobrei-me ao meio, inclinando o tronco para frente e apoiando as mãos aplainadas sobre a bancada de pedra do banheiro. Fiquei em um ângulo de 90º, mal tendo forças para voltar à posição ordinariamente incumbida à ética humana.

E a jovem ainda me fitava, mas, agora, no interior obscuro de minha mente.

Essa foi a minha primeira visão de um morto.

Mal posso descrever o susto que tomei. Estagnei-me por um momento, recuperando o fôlego que me foi tomado ao ver a reflexão do espelho. Não compreendi absolutamente nada; "será isso um produto da minha imaginação?", indagava-me. No momento, não havia melhor explicação – era um delírio, e de um delírio não passava.

Ao me convencer de que eu apenas estava ficando louca, aprumei as costas e limpei meu relógio com pressa. Ficar ali dentro do banheiro, após aquela cena, não estava me confortando. Sentia como se o ambiente estivesse abafado, quase sem oxigênio suficiente para manter-me de pé. Por isso, com o vidro limpo e os pulmões já quase vazios de combustível, saltei para fora daquele lugar, jogando-me no ombro de Vip como uma maratonista cansada.

- O que foi, Cel? – ele parecia preocupado; eu, por outro lado, arfava em função da adrenalina que me continha por inteiro.

- Eu estou ficando louca, Vip – e reafirmei: – Estou ficando louca.

- Ficando?! – sua testa franziu – Por mim você já é louca desde sempre, com aqueles sonhos, aquela história do sangue...

Ainda inspirando fortemente, eu dei um beliscão em suas costas. Ele grunhiu e, depois disso, conformou-se em manter a boca fechada. A imagem da jovem não me deixava em paz, rodopiando em meus pensamentos, dançando entre as lembranças de meu passado mórbido. Recordei-me de meus pais, tão queridos, mas tão jogados pela grama molhada. Tão sem vida, por esta ter lhes sido tirada sem piedade. E, agora, outro defunto parecia me atormentar, como se os fantasmas que me perseguiam já não me suprissem por completo.

- Vai me dizer o que aconteceu? – indagou-me, contudo, não pude responder. Além de estar em estado de choque, eu sabia que minhas palavras não seriam compreendidas por ele.

Meu amigo nunca acreditaria em mim.

Mantive-me calada e o pedi para me acompanhar até minha sala – éramos de corredores diferentes. Quieto, ele o fez, como se não merecesse explicações. E eu o agradeço por isso; afinal, mal sei se, naquele instante, meu fôlego me permitiria dizer o que acontecera no banheiro.

Entrei em sala de aula completamente petrificada. Não prestei atenção nas pessoas se cumprimentando, esbaforidas, saudosistas após as férias de inverno. Não abracei meus colegas, aliás, mal troquei duas palavras com eles. Eu apenas entrei, pasma, e me sentei na última carteira bem embaixo do ventilador. Não sei por que, mas, naquele dia em especial, os fundos pareciam me chamar mais.

Ninguém veio ao meu encontro. Ainda bem; eu provavelmente daria uma voadora em quem sorrisse para mim.

- Bom dia a todos e bem vindos de volta – o meu professor favorito entrou em sala. Tudo bem, na possibilidade de não terdes conseguido interpretar a frase corretamente, aqui vos explicito que ela foi irônica. Eu não o suporto. – Como foi o recesso de vocês?

Ninguém se pronunciou.

Ele continuou.

- O meu foi maravilhoso. Fiquei em casa fazendo o relatório de desempenho de cada um – e se voltou para o quadro – Agora vamos ao que interessa.

Soltei um suspiro e deixei meu olhar cair para a tampa da mesa. Tamborilei os dedos, fitei minhas unhas cujo esmalte já se descascava e, por fim, passado um tempo, chequei as horas em meu relógio de pulso. Rezava para já terem se passado, no mínimo, uns nove minutos. Porém, o relógio marcava 06:53.

Juntei as sobrancelhas. Mas a aula não começava às 07:00? O que aquilo significava? Não fazia sentido algum.

Ergui o olhar e perguntei as horas para minha colega da carteira ao lado. Ela riu, comentou algo como "já está querendo ir embora?", o que eu propriamente ignorei, e respondeu-me. 07:09. Dezesseis minutos à frente.

Meu relógio havia estragado?

Retirei-o do pulso e ajustei os ponteiros conforme o que tinham me dito. Feito isso, ele não tardou a funcionar, como se nunca tivesse parado antes. Contentei-me com o fato e tornei a vesti-lo como se nada houvesse acontecido.

Mas fiquei satisfeita em saber que havia acertado o tempo que se passara; haviam-se ido exatos nove minutos de tortura.

Bem, na verdade, fiquei relativamente satisfeita – tais nove minutos passados não conseguiram se comparar à eternidade e à tensão que me custaram os horários seguintes. Isso porque eu mal pude parar de pensar na reflexão do espelho pelo restante da aula, preocupando-me com o que tudo aquilo poderia significar para minha estabilidade mental. Eu havia gravado todos os traços da jovem em minha memória – os cabelos lisos e cortados em Chanel; os olhos grandes e esbugalhados olhando-me, defuntos; os lábios grossos deixando escapar-lhe a última expiração. Se eu fazia ideia do que estava acontecendo? Naquele momento, não. E isso me assustava profundamente.

O tocar do sinal me liberou para o intervalo. Lembro-me de ver todos se erguerem, agitados, e saírem de sala, ao passo que eu continuava estagnada em meu lugar recordando da imagem perturbadora que arrematara-me os pensamentos. Talvez eu não teria nem me levantado se não fosse por Vip, que viera me procurar.

- Agora você pode me explicar? – não me deu nem um oi.

Acordei de meu torpor e fui até ele, que mal havia passado da porta.

- Você vai rir – disse – Você sempre ri.

Ele abraçou-me ao ver que eu estava séria demais.

- E importa se eu rir? – ainda não me largara; sua voz era confortante – O que importa é você colocar isso pra fora, e nós dois sabemos que eu sou a pessoa mais confiável que você conhece.

Eu ri – só ele mesmo para se achar tanto assim.

- Tudo bem – soltei-o e respirei fundo. Não conseguindo colocar nada pra fora, decidi fechar os olhos e não encará-lo enquanto expelia tudo de maneira rápida, sem nem respirar direito: – Eu não sei como, mas eu vi uma pessoa morta no espelho.

E silêncio. Nem um pio. Nem um "a". Abri o olho esquerdo com cautela, apenas para espiar a expressão de meu amigo. Ele parecia assustado. Tornei a observá-lo.

- Não vai rir? – estranhei.

- Não – o horror ainda se estampava em sua face – Vou é te internar. Cada hora uma loucura diferente.

Sabendo que ele estava brincando – ou simplesmente desejando que esse fosse o caso – eu o abracei forte e desesperadamente.

- Não diga nada a ninguém – falei, apertando-o mais em meus braços – Não diga, por favor – e repeti.

- Para quem eu falaria? – foram suas únicas palavras.

Inspirei fundo, aliviada com essa resposta; ela havia me convencido bem. Não tinha alguém em quem confiar um segredo tão incomum – éramos apenas ele e eu, eu e ele. Melhores amigos praticamente exclusivos. Não pude conter um sorriso de se abrir em meus lábios e, já soltando Vip, levei-o para o corredor.

Até que fora bom dizer-lhe sobre aquela visão do banheiro.

- Você não me contou nada a respeito da viagem – comentei, mudando o foco da conversa e, talvez, também o de meus pensamentos. Quem sabe eu não me distraía com essa minha pergunta, que fazia referência à viagem que ele fizera à Europa com os pais naquelas mesmas férias?

Ele me puxou para perto pelo ombro e ficamos abraçados de lado.

- Descobri que as francesas não cheiram tão mal quanto dizem – e deu uma risada curta – Só o hálito que meu Deus...

Não pude evitar as gargalhadas.

- Aposto que é exagero seu! – disse, apoiando a cabeça nele.

- Ah, mas não me atrapalhou em quase nada. Pelo menos bonitas eram, não é?

E assim ficamos por um tempo, caminhando abraçados, trocando ideias a respeito das férias, das primeiras aulas, do vestibular... E o assunto estranho não voltou à tona. Pelo menos não ainda.

Os últimos horários passaram com mais rapidez. Creio que contar a ele tudo o que me ocorrera realmente me fizera bem, tal como jogar a mochila pesada em cima da cama após a aula. Era um alívio, um conforto, que me subiu à cabeça depois que me livrei de tudo o que a ocupava. Sim, caso queirais saber, continuei preocupada com minha sanidade; todavia, dividir essa preocupação com alguém fizera toda a diferença.

O fim da aula chegou-me com uma reviravolta no tempo, que subitamente se abriu. O frio foi deixado nas entranhas da manhã, perdido pelo passado das sete e poucas horas, e modificado pelo sol escaldante que exalava calor ao meio dia. Não compreendi o ocorrido, mas, sabendo que a natureza nem sempre fazia jus à estação, aceitei tal façanha do acaso e contentei-me com essa prova do verão. Eu não gostava do inverno de qualquer maneira.

O escolar já nos esperava à frente do colégio. Pensei em entrar e afundar no estofado de couro do banco, comentar qualquer bobagem sobre quem engordou nas férias com Vip e talvez até cochilar entre uma conversa e outra – eu demorava no mínimo meia hora para chegar em casa, embora eu morasse praticamente do lado da escola. Porém, algo a respeito daquele dia me convenceu a dar meia volta e ir andando pela calçada. Andando calmamente, sob a companhia do sol e de mim mesma, vadiando pelas ruas e desperdiçando a energia que eu mal tinha resguardada. Naquele instante, essa me pareceu a melhor das opções.

Fui-me, enfim. Não se fizeram apressados meus passos, que pelos minutos fluíam em deleite da temperatura agradavelmente alta. Observava-os acanhada, com as mãos enfiadas nos bolsos e a mente desvairada pendida nas nuvens brancas do céu. A imagem da jovem morta me voltou à mente outra vez, no entanto, eu tentei apagá-la de meus pensamentos. Declinei-me a pensar nela e no quanto eu já me perdia em minha própria loucura.

Não sei por que, mas olhar para o chão de concreto mal lavado das ruas me fez lembrar de meus pais. Abracei as memórias que me vinham em detrimento da outra, que aspirava tanto por esquecer. Essa não era tão pior que aquelas, aliás, talvez fosse até melhor. Todavia, as imagens do defunto de meu pai e do corpo mórbido de minha mãe eu já me havia, infelizmente, acostumado a tolerar.

Rememorei, então, as cenas tortuosas que, por vezes, reencontrava em meus sonhos, que mais soavam como pesadelos. Meu pai dirigia com tanta euforia que eu quase podia ouvir, do banco de trás do carro, seu coração palpitar. Via apenas seus cabelos acinzentados bagunçarem-se sobre sua cabeça já bagunçada, já confusa pelo trajeto que tanto lhe preocupava. Suas mãos atrelavam-se ao volante com fome, abocanhando-o ferozes, vorazes. Seu pé, afundado no acelerador, tremia; mas não se afrouxava por nada nesse mundo.

Minha mãe parecia talvez mais aflita que ele. Ela rodava os olhos pelos cantos, tateava tudo, procurando por algo que ambos perderam. Eu não sabia o que era, porém, podia sentir a face fria e dura de um metal tocar-me a ponta dos dedos, dançar na palma de minha mão e cair no carpete do passageiro. E algo realmente brilhava ao meu olhar, no chão do carro, onde meus pés antes não conseguiam alcançar. Era o que minha mãe tanto desejava; e eu queria poder dizer a eles que eu havia achado o que quer que haviam perdido, mas o impacto foi rápido demais. Meu pai logo girou o volante por completo e pisou no freio – um caminhão vinha ao nosso encontro. Contudo, não foi o suficiente para nos parar, e o carro girou, rodopiou e foi violentamente cuspido para fora da rodovia. O restante não é necessário descrever com tantos detalhes, mas garanto que eu os vi, ali mesmo, ambos deitados por sobre a grama molhada que lhes acomodava a morte.

E eu mal sei como sobrevivi, minha tia nunca mencionara o acidente; as memórias daquele dia se resguardavam em minha mente por meio dos sonhos que tinha desde pequena. Afinal, eu mal havia completado meus quatro anos de idade quando perdi meus pais.

Lembrar tudo ao pé da letra não seria, nem de longe, possível.

Avistei minha casa a uma quadra de distância. Um vento frio bateu-me contra a face e jogou meus cabelos escuros e compridos para trás, fazendo-os flamejar contra os raios de sol que desciam dos céus. Vi logo que o calor seria breve, e o inverno não tardaria a se manifestar de novo. Era uma pena. Suspirei e, desapontada com o tempo, eu fiquei a deslumbrar a aproximação lenta de meu lar. Notei que o balanço construído anos antes por meu pai agitava-se com a ventania que vinha, como se revivesse o passado remoto no qual nós dois, juntos, divertíamo-nos no jardim.

Um sorriso receoso escapou de meus lábios delgados. Eu me sentia tão sozinha quanto aquele brinquedo, que persistia em brincar mesmo estando vazio de gente, vazio de alma, vazio de vida. Mas seu vazio, por outro lado, não o impedia de seguir em frente, de se movimentar. O meu ainda não me deixava viver; ele não era substituível. Desejava eu, por isso, ter meu pai para completá-lo, apaziguando-me finalmente o coração. Entretanto, eu já sabia, naquela época, sob a ingenuidade de minha ignorância, que o destino o havia tomado de mim.

Eu só não havia descoberto ainda o quanto o destino era cruel.

E o balanço, agitado em demasia, desprendeu-se da haste e caiu diretamente para o gramado recém cortado. O vento ficou ainda mais forte e levou algumas folhas secas caídas das árvores, descobrindo um trecho do passeio que antes se mostrava vestido por elas. Foi quando eu vi, ali, caído na calçada, algo me chamar a curiosidade. Aproximei-me devidamente intrigada e me agachei perante o que fosse aquele pedaço de papel que antes se escondia por trás dos restos do inverno. Era uma foto de uma adolescente, de aproximadamente 15 anos, que sorria para a câmera com todas as suas alegrias estampadas na face. Uma garota que parecia amar a vida, e não imaginar-lhe a morte. Uma garota destemida, mas que mal devia saber o real gosto do sangue.

Uma garota de pele caucasiana, olhos grandes e cabelos loiros cortados rente à nuca.

Eis que os problemas, enfim, começaram a me incomodar.

Capítulo 2

Estaria mentindo caso dissesse que eu agi como se nada houvesse acontecido.

Segui caminho com a foto em mãos. O meu estado pasmo de horror não me permitiu pensar em meus atos ou em minhas próprias ideias, arrastando-me sobre as folhas secas e caídas sem nem me perguntar para onde desejava ir. Na verdade, chego a acreditar que fui bem vinda em casa pelas sombras do esquecimento, pois logo me vi sentada perante minha escrivaninha, sob a luz amarelada de meu quarto, ainda espremendo o papel entre os dedos da mão esquerda, enquanto os da direita se ocupavam com o telefone fixo. Mas as lembranças de como parara ali, naquelas condições... Estas estavam tão escondidas que eu mal acreditava que me fossem acessíveis.

Quando me dei conta de mim mesma, pisquei feito uma idiota que mais precisava de um colírio.

Quem diabos havia cerrado as cortinas e acendido a luz em pelo dia?

Fitei o telefone em mãos. O número do psicólogo que me atendera anos antes estava aberto na agenda telefônica. Não me lembrava de ter pegado tal agenda. Não me lembrava de tê-la colocado sobre o vidro da escrivaninha frente à qual estava. Não me lembrava de tê-la aberto. Todavia, não hesitei em transcrever o que eu via para o visor do telefone; prometi-me que só contaria o que tinha me ocorrido a Vip depois de tomar providências. Afinal, o maior conselho que ele poderia me dar era: "Cel, tome providências".

Eu era – e ainda sou – muito eficiente.

Ouvi cair na caixa postal três vezes seguidas. Talvez fosse o horário de almoço que impedira o outro lado de atender minha chamada. Joguei, portanto, minha ansiedade para fora em um suspiro esbaforido, o qual se fez um alto ruído ao fundir-se com o susto que tomei em seguida. Tia Clara quase arrombara minha porta.

- Garota, por acaso ficou surda? – cuspiu rudemente para mim, sem dar-me tempo suficiente para recompor meu fôlego.

Tornei-me docilmente para ela e vi-a em sua posição de ataque: o pé direito posto adiante, uma das mãos abocanhando a maçaneta, as costas levemente aprumadas e a cabeça inclinada para frente, bagunçando-lhe os cabelos falsamente loiros e ressaltando-lhe as veias do pescoço. Ela parecia um gato pronto para saltar sobre sua próxima e inocente presa.

- Me desculpe, eu estava no telefone – não alterei o tom de voz.

- Hora do almoço – e expôs seus caninos ao traçar em seus lábios o mais cínico sorriso – Pedi chinês.

Maravilhoso. Eu odiava chinês.

- Já estou indo – retribuí o sorriso e observei sua saída triunfante para fora de meu quarto. Eu estava contrariada, sim, mas sabia que seria chinês ou fome. E eu é que não optaria pela fome.

Não demorei mesmo para descer as escadas espirais do fundo do corredor e alcançar a sala de estar, onde a mesa estava posta para, obviamente, uma pessoa. Se eu quisesse prato e talheres, eu "é que deveria pegá-los, ora", como diria minha tão adorável tia. Peguei-os e me sentei de frente para ela na comprida e pomposa mesa de jantar, que comportava nós duas e mais seis pessoas inexistentes que, por algum motivo extraordinário, viessem a nos visitar. Não, nós não tínhamos tantos amigos assim para preencher aquela mesa. Ela, porém, era extremamente cara e elegante, o que supria a necessidade de Clara de ostentar – para, provavelmente, si própria – o dinheiro que lhe vestia a face plastificada e que me cabia por direito.

Servi-me de um pouco do arroz e do frango xadrez dispostos à minha frente.

- Depois não sabe porque não engorda – comentou, referindo-se à quantidade de comida que eu colocava – Você precisa de mais sustância, menina. Claramente, você puxou a genética do pai. Tão fraquinha... – e riu consigo mesma, colocando uma farta garfada de frango na boca.

Eu a ignorei e permaneci quieta, canalizando minha raiva ao contar quantas vezes minha tia mastigava cada abocanhada. Uma, duas, três, quatro. Sempre funcionava.

- Estava falando com quem ao telefone? – indagou domada por sua curiosidade inconveniente.

- Liguei para o doutor Ribeiro, mas ninguém atendeu.

Suas sobrancelhas se uniram em uma reta.

- Por que você queria ligar para ele?

Uma, duas, três, quatro mastigadas.

Eu dei de ombros.

- Ah, não me sinto muito bem.

- É claro que não – ela me olhou seriamente – Pensou em pedir permissão primeiro?

Neste momento, a vontade de lançar-me sobre ela me dominou por um segundo. Desejei arrancar-lhe os cabelos oxigenados, rasgar suas roupas de grife, arranhar sua tão adorável e inútil mesa de jantar. Eu quis, com todas as minhas forças, tirar-lhe tudo o que nos era supérfluo e, ao ter a repreensão de seu olhar como resposta, gritar a ela: "pensou em pedir permissão primeiro?".

Mas eu só suspirei e contei suas mastigadas outra vez: uma, duas, três, quatro.

- Me perdoe, tia. É claro que eu iria te pedir primeiro, mas é que...

- Pois a resposta é não – interrompeu-me sem nem ao menos me fitar nos olhos – Não vou gastar meu dinheiro com seus caprichos.

Coloquei um pouco de arroz na boca antes que eu desgastasse, desnecessariamente, minhas cordas vocais. Fitei-a dar sua última garfada, essa ainda maior que as anteriores, e fiz o de sempre: uma, duas, três, quatro...

Cinco?! Ela nunca mastigava cinco vezes?!

E a campainha tocou simultaneamente ao soar do quinto número nas entranhas de minha mente. Tia Clara se ergueu quase que de imediato, indo atender a porta.

- É aquele loiro de novo, não é? – enquanto caminhava, seus gritos histéricos referiam-se à Vip, cujos cabelos eram de tom castanho claro – Vocês namoram? Cuidado que ele é muita areia pro seu fusquinha, Cecela.

Eu odiava quando ela me chamava de Cecela – talvez fosse por esse motivo que ela continuava se dirigindo a mim de tal forma.

- Ele é só meu amigo, tia! – falei em uma altura a que ela pudesse escutar, todavia, não obtive respostas.

Alguns minutos depois, vi-a retornar à sala acompanhada apenas de uma carta em mãos. Seu semblante, assíduo, estagnou-se em uma expressão que misturava, ao mesmo tempo, tantos sentimentos que mal pude interpretá-los por inteiro. Achei-a, simplesmente, misteriosa, tal como se a entrega do envelope a houvesse conferido um segredo maior do que sua conta bancária.

Eu não fazia ideia do quanto aquele pedaço de papel poderia mudar minha vida.

- Chegou para você. Abra depois de lavar a louça – foi o que disse, deixando a correspondência perante meu prato.

Em seguida, ela apanhou um biscoito da sorte de uma sacola plástica esquecida em um dos cantos da mesa e, já colocando o doce na boca, foi andando rumo à escada sem nem se lembrar do bilhete contido dentro da sobremesa.

Fitei a carta e, sem maiores curiosidades, dirigi-me à cozinha para lavar os pratos. Fá-lo-ia em pouco tempo, devo dizer, mas me perdi em meio às memórias do passado enquanto brincava com o detergente e a água. Rememorei-me os tempos de infância, a época em que eu havia de comparecer periodicamente ao doutor Ribeiro para checar minha sanidade mental. Lembrei-me das nossas conversas, nas quais o homem tentava assiduamente me convencer de que eu não estava no acidente que tirou a vida de meus pais. Que eu nunca sentara naquele banco de trás; que eu nunca vira aquela chave brilhar em meio à escuridão do carpete do carro. Que meus pais, na verdade, haviam falecido em uma época tão remota que as recordações nem me viriam com tanta facilidade, caso eu tivesse participado do momento.

De acordo com ele, eu nem deveria me lembrar do rosto de meu pai, se não fossem as fotos que guardava em meus porta-retratos. A lembrança do balanço, por exemplo, o psicólogo dizia ser fruto da minha imaginação.

"Você perdeu os pais com três anos, Marcela", dissera ele. "Não tem como você se recordar de nada com tanto critério". E eu havia assentido com a cabeça simplesmente para poder me livrar das sessões; contudo, sempre confiei em minha mente e nas informações que ela me conferia. Eu sabia, no fundo, que o homem somente não desejava me traumatizar mais do que eu já estava traumatizada e, por isso, persistia tanto em desconstruir-me as memórias. Inspirei fundo e, comigo, pensei que a consulta talvez não viesse a ser tão satisfatória quanto eu imaginava. Ele poderia, desta vez, dar-me novamente o diagnóstico errado para evitar que eu entrasse em puro colapso. Guardei minha loucura dentro de mim, portanto, seguindo assim contrariada as ordens de minha tia.

Já era meio de tarde quando eu terminei de arrumar a cozinha. Sequei minhas mãos molhadas pela água da torneira, apanhei o último biscoito da sorte que restava na sacola, peguei a carta que havia chegado para mim e retornei ao meu quarto. Frente à minha escrivaninha eu tornei a me sentar; minha curiosidade em torno da correspondência enfim começou a florescer. Fui, primeiro, checar o remetente – porém, não havia. Não havia remetente algum. Mordi os beiços, fitei o envelope completamente em branco e até me esqueci do dilema que antes me corroía. "Quem me mandou isso?", era o que eu não parava de me perguntar.

Abri-o com cautela e retirei de lá um papel perfeitamente dobrado em três partes iguais. E sim, isso é um detalhe superimportante para ser relatado.

É difícil encontrar pessoas que dobram certinho hoje em dia, viu?

Desdobrei o papel e vi o que ele continha. Era uma intimação. Uma reunião aconteceria no dia seguinte, e eu havia sido convocada para comparecer. Nenhum detalhe me foi dado: horário, local ou qualquer outra informação sobre o que aquilo se tratava. Havia apenas meu nome, um conteúdo sucinto que se restringia à "você foi convidada para participar de uma reunião..." e um blábláblá que não esclarecia porcaria nenhuma e, por fim, uma assinatura que mais se parecia com um rabisco, e não com um nome. Ah, não sei porque também, mas o número 3867 estava carimbado em um dos cantos.

Normal. Essa situação era simplesmente normal.

Dei de ombros e deixei o envelope de lado. Uma vontade louca de olhar o relógio me pegou de supetão. Vi que se completaram quatro horas da tarde. Quatro em ponto. Não sei porque, mas meus olhos foram de encontro aos ponteiros do relógio justo quando os dois maiores, que marcam os segundos e os minutos, abriram um ângulo de 120º com o das horas. Senti uma aflição imensa subir-me aos pulmões, como uma enorme afobação, um medo tremendo e inexplicável. Ofegante, corri até a janela e abri-a, jogando minha cabeça para fora desesperadamente.

Foi quando eu vi um homem elegante passar pela porta de minha casa vestindo um terno preto. Um terno chique, daqueles que se usam em festas de gala.

Não, ele não carregava uma pasta. Ele não carregava nada. Apenas vagava pelo passeio, arrumado para um grande evento, mas agindo como se estivesse procurando por algo.

Uni as sobrancelhas. Quem se arruma às 16h da tarde de uma segunda, passa gel no cabelo, põe seu melhor terno e fica andando pela rua? Era uma situação bizarramente engraçada, porém, por mais que eu quisesse ter um ataque de risos, ali mesmo, debruçada na janela, eu continuava sem ar. Por mais que respirasse feito uma senhora com problemas respiratórios, a situação não se alterava – meu coração se acelerava cada vez mais, meus pelos se eriçavam, o oxigênio era exalado para fora dos brônquios.

Mas que droga...?

O homem de terno enfim se ausentou de minha visão. Repentinamente, meu fôlego regulou-se, como se Deus houvesse desistido de me submeter a um ataque do coração. Atrelei-me ao oxigênio como se ele não fosse mais voltar para mim; inspirei, inspirei, inspirei... Inspirei tanto que talvez tenha ficado cansada de respirar.

O fôlego me foi recuperado junto à vinda da confusão. Peguei-me pensando na carta, no vazio de suas palavras, na sua incoerência misteriosa. Não imaginava propósitos cabíveis para recebê-la. Esboçava em mente uma silhueta desfocada, que, sob o tédio de um dia invernal, resolveu se ocupar em me escrever. Só poderia essa ser a razão para me convocarem para uma reunião sem data, local, hora; sem informarem-me quem é o remetente.

E qual o motivo para ter estampado em papel o número 3867? Seria uma espécie de controle das correspondências? Seria a minha a 3867?

Ninguém, no entanto, abriria uma carta para rotulá-la...

O sentido parecia rir da minha cara sentado em um trono de ouro.

Por fim, havia desistido de marcar uma consulta. Havia me abdicado temporariamente da procura por verdades sobre a carta. Havia resolvido deixar a história do morto para trás. Enchi o peito de ar e, soltando esse por completo entre os dentes, parei para analisar meu dia. Nunca me ocorreram tantas situações estranhas em tão poucas horas.

Mas, antes mesmo que eu a começasse, a reflexão foi bruscamente interrompida por um dos gritos histéricos de tia Clara. "Garota!", a voz esganiçada rompia contra meus ouvidos. "A campainha está tocando!".

E eu era a serviçal que, sempre à disposição, deveria atender a porta.

Descontente, pus-me de pé, com a mente ainda sobrevoando os ares tal como um sistema wireless de internet. Mantinha meus pensamentos pairando por aí, distorcendo a realidade de maneira a me fazer, por ela, passar despercebida. De antemão, já vos digo que mal prestei atenção que eu havia me esquecido de pôr as calças quando eu abri a porta da frente.

- Ah, oi, Vip – e ainda estava à procura da minha alma, a qual mais vagueava pela quarta dimensão, em vez de marcar presença em terra firme.

Ele uniu os lábios de maneira a formar uma linha reta no lugar da boca.

- Cel... Tudo bem que a gente se conhece desde bebês, mas não acho que eu posso te ver de roupa íntima assim, tão rotineiramente.

Foi então que eu me dei conta de que era, ahn, a terceira vez no ano que eu fazia isso. Ainda bem que era uma calcinha estilo vovó que se parecia com um shortinho.

Droga, talvez eu precisasse mesmo de um psicólogo, mas para me buscar do meu próprio mundo.

- Ops... – e me escondi por trás da porta como se existisse regra dos cinco segundos para flagras indecentes – Me desculpe, dia difícil.

- Dia avoado – corrigiu-me, franzindo o cenho – Não tranque a porta e vá subindo. Te encontro lá em cima.

Aquiesci e segui suas ordens com uma careta estampada no rosto. Eu precisava acordar mais pra vida. Ou aquele dia precisava ficar mais normal.

Ele entrou em meu quarto um pouco temeroso quanto ao que poderia encontrar. Felizmente, tudo o que achou foi uma adorável versão de mim já com os pés no chão e as pernas devidamente enfiadas em um par de calças jeans. Meu amigo deixou um suspiro escapar ao checar-me em condições apresentáveis e, assim, lançou-se sobre minha cama de casal, que estava vestida com os antigos lençóis rosa chá de minha mãe. Eu gostava deles; eles me lembravam dela.

- Eu vim porque estou preocupado com você – confessou, pregando seus olhos azuis nas estrelas fluorescentes coladas no teto branco – Parei para pensar nas últimas horas que talvez você devesse procurar ajuda... profissional.

Estais vendo bem isso? Eu sabia que ele me aconselharia dessa forma.

- Eu também – minha fala soou acanhada e, junto a ela, encolhi-me em meus braços como uma vulnerável criança em tempos de frio – Mas...

- Não pode ter mas – cortou-me a fala.

- Mas tem – suspirei e, assim feito, retomei: – Mas minha tia não me permitiu e, de qualquer forma, nem sei se resolveria algo.

Ele se indignou, erguendo seu corpo e se acomodando na borda da cama. Seu olhar me encontrou de maneira séria; quase não o reconheci.

- Você está inventando desculpas?

- O quê?! É claro que não...

- Porque eu posso te citar várias coisas que, acredite, não são normais em você.

Aquilo pode ter doído mais do que o esperado.

- Vip...

- Tudo bem – esganiçou a voz – Não vamos mais falar sobre isso – e tornou a deitar-se sobre o colchão – O que me conta do primeiro dia?

Eu, que ainda estava de pé, apanhei a carta sobre a escrivaninha e sentei-me ao seu lado na cama. Ele continuou lá deitado, com os braços apoiados por sobre o peito e a respiração ainda lhe entregando a preocupação que tinha comigo.

- Eu recebi isso – e coloquei o envelope em cima de seu umbigo, enterrando, em seguida, minha testa nas palmas de minhas mãos.

- Uma cartinha? – sua voz se acanhou – Own, é do Pedro?

Por um segundo, eu deixei de esconder meu rosto com as mãos por precisar de uma delas. Golpeei-o no mamilo direito.

Era o nosso assunto proibido, e ele não podia agir contra a famosa regra de "não retomar assuntos proibidos".

- Ai! – exclamou, irônico – Você andou malhando?

- Definitivamente – respondi no mesmo tom – Já estou conseguindo apertar o botão do bebedouro com uma só mão.

- Mas que maromba! – exclamou no segundo em que desdobrou o papel contido no envelope; em seguida, seu tom caiu em um grau: – Essa não é a letra do Pedro.

Seus olhos rolavam pela folha e, à medida que o faziam, suas sobrancelhas se uniam e formavam uma ruga delicada entre si. Por fim, ele apenas se sentou, abaixou a correspondência e, confuso, indagou-me:

- O que é isso? – a seriedade era um novo personagem que ele assumia agora.

Dei de ombros.

- Desisti de tentar entender – e suspirei – Deve ser alguém tentando me pregar uma peça, sei lá.

Ainda sem tirar sua atenção da carta, ele apenas murmurou um "aham" e ignorou minha existência ao seu lado. Não entendi se ele concordava comigo ou se ainda não estava convencido do que eu lhe dizia. Sendo como fosse, no entanto, ele não demorou a largar o envelope e a se jogar de costas de volta para cima de meu colchão.

- E então...? – disse, deitando-me ao seu lado.

- E então o quê? – ele retrucou após torcer seu pescoço para me ver melhor.

- O que você acha? – fiz o mesmo movimento que ele, ainda deitada de barriga para cima.

Seu olhar se deixou atrair outra vez pelas estrelas do teto; Vip parecia perdido, disperso, como se não houvesse por um segundo permitido-lhe abrir a mente para o que eu lhe expunha. Como se não houvesse por um segundo parado de pensar no assunto anterior.

- Eu acho que você não deveria se distrair com cartas anônimas por enquanto.

E ele estava certo. Sabia eu, no fundo da alma, que a razão lhe acompanhava sempre a voz sábia e amiga. Eu de fato estava admirada com a correspondência por inconscientemente atribui-la mais importância do que o que realmente me era um problema – problema esse que, por ordens de minha mente ainda sã, eu preferia ignorar. Não desejava voltar a pensar na minha possível loucura.

- Eu sei.

O assunto foi enterrado por debaixo dos lençóis de minha falecida mãe. O silêncio, esse sempre bem-vindo em momentos desconfortáveis, ocupou o lugar de qualquer inconveniência que um de nós pudesse soltar entre dentes. E ambos permanecemos lá, com a atenção apontada para cima, e a cabeça sobrevoando para além das estrelas que uma vez eu pregara em meus céus.

- Sabe – ele soltou, assim, do nada, em meio a nosso momento de transe – Sua loucura me enlouquece, Cel.

Abri um sorriso torto.

- Talvez você já seja louco, Vip.

Ele se virou de lado.

- Devo ser. Aliás, eu te aturo, não é? – e soltou uma risada – Mas falo sério. Me lembro de quando ainda éramos pequenos e você encontrava chaveiros pela calçada. Era tão estranho – repentinamente, ele engrossou a voz: – "Cel, o que você está fazendo?" – agora afinou-a em demasia: – "É que eu achei um chaveiro, Vip".

Eu me derramei em gargalhadas, voltando-me, também, para ele.

– Até parece que nessa época sua voz era grossa assim. A gente tinha o que, uns cinco anos?

Mas ele ignorou e continuou sua encenação.

- "Outra vez um chaveiro?" – seu tom havia se encorpado novamente – "Dessa vez ele é da Cinderela! Que lindo!" – não contive minhas risadas ao relembrar a situação – "Poxa, Cel, por que você não acha um bilhete da loteria da próxima vez?"

Dei um tapa em seu ombro.

- Ei! Essa fala não existe!

- Mas ainda assim ela tá valendo. Se você encontrar um, lembre-se do meu endereço. E da minha conta bancária.

Suspirei em delírios saudosistas, ignorando meu amigo e me transportando ao mundo paralelo do passado. Lembrava-me de nossas brincadeiras no jardim, nas quais ambos corríamos desenfreados pelos cantos, sem nos preocupar com escola, família, dinheiro – ou até insanidades. E, em meio a toda atividade, eu sempre encontrava algo escondido que aos meus olhos se despia de disfarces: um chaveiro com temática infantil. E eu ainda tinha o da Cinderela guardado em meus pertences, tão bem preservado como se vivesse naquele tempo antigo do qual sinto falta.

- Você falou com o Pedro hoje, Marcela? – sua pergunta cortou minhas memórias como uma facada no peito. Era a segunda vez que ele tocava no assunto proibido em um só dia.

- Vip...

- Pare de fugir da porcaria do assunto. Vamos legalizar essa conversa – afirmou como se não me desse opções – Você falou com o Pedro hoje?

Eu engoli em seco; o nada me descia pela garganta arranhando-a até atingir a beirada do estômago.

Pedro.

Mas como eu desejava esse nome distante de mim.

- E-eu... – engasguei com as palavras, soltando-as entrecortadas por pensamentos que não desejavam ser pensados – Eu não me lembro de tê-lo visto hoje...

Meu amigo segurou minha mão firmemente e fitou meus olhos de maneira quase engraçada.

- Você não agarrou o coitado no corredor não, né Cel?

Sim, eu o empurrei da cama sem pensar duas vezes. Não, eu não me arrependo. Desejava mesmo que ele desse de cara com o chão antes que outra piadinha sem graça lhe escapasse dos lábios.

- Não precisava ser agressiva – Vip disse, erguendo-se e se sentando na beira do colchão – Foi só uma brincadeira. Eu sei que você não teria coragem nem de cumprimentá-lo se ele viesse ao seu encontro.

Isso era definitivamente verdade.

- Acho melhor banir mesmo a porcaria do assunto.

Ele revirou os olhos.

- Então continue nesse seu mundinho maravilhoso e protegido. Até parece que tudo vai se resolver assim – Vip começou a contar nos dedos: – tipo a loucura, os sonhos, o Pedro...

- O Assunto Pedro morreu nas férias, você sabe.

- Tudo bem. Eu sei – ele se ergueu e, com indignação, acrescentou nada-delicadamente: – Acho que vou indo.

- Mas já?

Ele, porém, só deu uma última resposta, já de costas para mim, caminhando em direção à porta:

- Eu vim porque estava preocupado, mas você proíbe minhas preocupações...

E foi-se embora antes que eu pudesse debater dramaticamente e implorar-lhe a companhia.

Droga.

Senti-me sozinha ao ouvir a porta da frente se fechar escadaria abaixo. Ao contrário do que Vip pensava, eu não conseguia me proteger de meus incômodos. Os assuntos proibidos ainda passavam por minha mente diariamente, frequentando minha rotina como se dela fizessem parte. O Assunto Pedro não era exceção. E é por isso que eu não desejava conversar sobre ele – o que acontecera machucara-me, e relembrar em voz alta poderia me matar enfim do coração.

Prendi meus olhos no teto. Agarrei com a vista as estrelas coladas sobre minha cabeça; mantive-as em pensamento enquanto meus problemas não queriam ser resolvidos. Peguei-me em delírio pela simplicidade das memórias: relembrei, na ocasião descrita, o dia em que eu as ganhei de meu pai. Eu era tão pequenina que mal pude entender o que ele me dissera ao colá-las sobre mim.

- Cada estrela é um presente – seus pés se equilibravam sobre meu colchão, bambos, e sua testa se franzia em vista da altura a que miravam seus olhos – Quanto mais elas brilharem, mais preparada você estará, e mais elas se orgulharão de você.

Não hesitei ao perguntar-lhe para que me serviria a preparação.

Ele voltou seu foco para meu rosto então redondo e, sorrindo, disse:

- Preparada para a vida.

A lembrança me atiçou a felicidade, e seu legado se expressou em meus lábios como um deleite, erguendo-lhes os cantos e contraindo minhas bochechas. Nunca notei se as estrelas realmente brilhavam mais a cada dia, mas sempre acreditei nessa metáfora como um objetivo do qual eu não poderia desistir. Eu deveria aprimorar-me os talentos diariamente caso quisesse que minhas maiores estrelas, de mim, se orgulhassem.

E minhas estrelas seriam eternamente meus pais.

Um assobio lá fora, no entanto, prendeu-me a atenção, muito embora não houvesse me apagado a alegria momentânea das recordações que me cutucavam a memória. Corri até a janela e, com um sorriso no rosto, acenei para Vip que se punha de pé na calçada.

- Até amanhã, boboca – ele gritou para mim; seus cabelos castanho-claros eram levados pelo vento de maneira galanteadora.

- Te vejo por aí, panaca – respondi-o no mesmo tom.

Bem, é difícil de explicar, mas essa era meio que uma tradição nossa. Sempre que ele ia embora, meu melhor amigo havia de assobiar na janela para uma última despedida. Desde pequenos, nós fazíamos esse simples ritual para deixar claro que nenhum de nós havia ficado chateado com nada do que acontecera previamente. Caso um não respondesse, porém, significava que uma das partes não estava sintonizada com a outra.

E então nós procurávamos fazer as pazes antes mesmo que a distância nos separasse.

Ergui ainda mais os cantos da boca ao me certificar que eu ainda tinha alguém com quem poderia sempre contar. Mesmo órfã, mesmo sobre a tutela de uma tia que me odiava, mesmo quando não parecia me restar mais ninguém no mundo, Vip ainda estava constantemente ao meu lado.

E eu o agradecia imensamente por isso.

Assim que o vi sumir de vista, tornei-me outra vez para meu quarto vazio; meus olhos, então, apanharam algo em cima de minha escrivaninha – meu biscoito da sorte. Havia me esquecido completamente dele, apesar do apreço que sentia por aquele pequeno pedaço de doce. Eu amava o biscoito da sorte. Por mim, era essa a única parte da comida chinesa que realmente valia a pena, contudo, não o afirmo devido ao gosto que ele tinha, não; pois o gosto mais se assemelhava ao de um biscoito normal. Eu amava aquela sobremesa em virtude da mensagem que continha em seu interior.

Abri o plástico que o envolvia e, com cautela, quebrei-o ao meio, tomando cuidado para não se esfarelar em meu quarto. Minha sorte do dia, essa, bem, guardei-a para a vida toda. Guardei-a para todos os momentos. Dela, nunca me esqueci.

"Não há endereço exato para seu destino, pois é o seu destino que virá até você – 04 08 20 15 09 01".

E sua importância se deu devido ao que posteriormente notei: caso lida com atenção, percebia-se que os números que acompanhavam a mensagem pareciam apontar uma data e um horário.

A data do dia seguinte, às 09:01 da manhã.

Capítulo 3

O grande problema do dia seguinte fora a aula de história.

Tudo estava correndo bem até então. Eu acordara com o auxílio de um antigo despertador (já que meu celular residia na mansão dos mortos), que tocou o ordinário toque de duas ou três repetidas e irritantes notas musicais; tomara o café da manhã como uma modelo de 40 quilos; quase perdera o escolar; não trocara nem duas palavras com Vip devido ao seu sono pesado que tomou-lhe o tempo de viagem até a escola; arrastara meu amigo sonolento até sua sala; sentara-me em uma das carteiras do meio da minha sala. E, enfim, inspirei fundo como quem pensa que terá um instante de descanso, mas que, na verdade, ainda tem mais seis longos horários de aula. E isso só de manhã.

História foi o primeiro horário. Tentei ao máximo prestar atenção nas palavras do professor, ao invés de me deleitar em minha própria imaginação. Não fui capaz, todavia; logo já viajava pela via láctea, saltando de Marte para Vênus, rodopiando mais do que o movimento de translação da Terra em torno de si própria. O que mais me incomodou, devo apontar-vos, foi quando meus pensamentos deixaram as estrelas e pousaram em terra firme, assumindo a realidade como sua primazia. Parei de fantasiar e, ao invés disso, tornei a me preocupar comigo mesma.

As questões daquela segunda voltaram-me à mente.

Não queria, entretanto, sofrer pela minha possível insanidade, afinal, ela me era um problema insolúvel. Acanhei-me por isso em meu canto, puxando as mangas do casaco de lã até as pontas dos dedos. O frio me corroía a pele, e eu assumia, assim, o lugar da defunta que vira pelo reflexo do espelho; pálida, frívola e inerte. Engoli em seco, no mais, mantive-me temerosa quanto aos acontecimentos recentes, e tentei por fim me recomeçar a vida como uma pessoa ordinária e naturalmente alienada. O dia anterior eu apaguei da mente e, a carta e a foto, eu fingi nunca ter visto. E foi com esse passe de mágica que eu voltei a ser a Marcela do início da história: incrivelmente badalada e completamente amada pela tia. Só que não.

Desejei conversar. Desejei-o por pensar que tal atitude seria uma atitude normal; algo que alguém que não vê mortos no espelho e nem recebe cartas misteriosas faria. Inspirei fundo e, assim que o professor deu uma pausa em seu discurso para fazermos exercícios, cutuquei o meu colega da frente. Droga. Eu não podia ter feito isso.

Um garoto dos cabelos castanhos e olhos pequenos virou para trás.

Era o tal Pedro, o menino que eu vinha evitando nos últimos dias. Ele não disse nada.

- Ahn, oi – falei atrapalhadamente, pensando no que inventar a seguir. Eu não sabia mais o que dizer para além de "como vai, eu vou bem, obrigada".

- Oi – ele franziu o cenho enquanto sibilava seu monumental cumprimento – Quanto tempo.

- É, desde a...

- Festa da Marina – ele completou friamente.

- Sim, a festa da Marina – escondi os lábios para dentro da boca e, sem graça, rolei os olhos pelos cantos; eu nunca desejara tanto aquele garoto longe da minha vida – Mas que tédio essa aula, não?

Ele aquiesceu com a cabeça.

- Nem me diga – e sorriu torto para mim; parecia forçado – Como foram as férias?

“Por que ele tem de ser da minha sala?”, indagava-me repetidamente. Talvez, se ele não fosse da minha sala, eu não cometeria tantas estupidezes como esta.

- Boas... – eu suspirei – E tediosas...

Nossa conversa estava tão, mas tão morta, que eu desejei ao máximo sumir dali antes que ele pronunciasse mais uma palavra sequer. Desejei e, em seguida, surpreendi-me: talvez minha vontade sobressaíra-se aos planos do destino; talvez, eu quisera tanto cortar o assunto que minha fada madrinha resolveu me atender os pedidos.

- Qual exercício ele pediu para fazer? – uma colega nossa indagou-o.

Ele, atencioso, respondeu-a com boa educação:

- O número cinco – concluiu a frase abrindo um simpático sorriso.

E, estranhamente, sua fala saiu em uníssono com um misterioso abrir de portas. Era alguém que entrava – um funcionário da escola. E, já dentro de sala, o homem anunciou meu nome completo em tom sério.

- Marcela Moira – e fitou um bilhete em suas mãos, tornando depois a focalizar a turma com seus olhos escuros – Alguém veio te buscar.

"Me... buscar?!", era a pergunta que não se sossegava dentro de mim.

Com minha mochila em mãos, ergui-me desentendida, preocupada, desorientada. Mas, sendo como fosse, ergui-me. Ergui-me contente por ter o alarde daquele rapaz, que, parado à frente, chamava-me pelo nome. Ergui-me satisfeita por ter de ir embora e não mais precisar dar continuidade à besteira que começara. Ergui-me e, extasiada, saí de sala sem saber porque estava saindo, mas grata por está-lo fazendo.

O funcionário tornou-se para mim assim que fechamos, já no corredor, a porta da sala que eu deixaria para trás.

- Estão te esperando lá fora – falou com serenidade.

Fiquei um instante sem saber o que dizer, no entanto, as palavras logo me encontraram e saíram sem me embolar a língua:

- Quem me espera? – estreitei os olhos desconfiados.

Ele deu uma olhadela na folha em mãos.

- Marcos Coelho, com autorização prévia de seus responsáveis legais – seus lábios sibilaram.

Em seguida, o rapaz deu dois tapinhas em um de meus ombros e sumiu pelo corredor. Eu, em contraponto, permaneci estagnada no mesmo lugar, não lhe dando mais amostra alguma da minha voz; não sabia o que fazer. Não sabia se eu, amedrontada, voltava para dentro de sala e retomava a conversa mais monótona da história de conversas monótonas. Não sabia se eu ignorava o fato de não conhecer nenhum Marcos Coelho e, mesmo assim, saía da escola com ele. Não sabia, simplesmente não sabia – e, por isso, eu continuei apenas piscando e respirando, ainda parada, ainda petrificada, ainda indecisa.

Julgai-me se preciso. Dizei-me que sou louca, de fato, e que realmente precisava das tais sessões com o doutor Ribeiro. Apontai-me os defeitos, contai-me que não tenho noção do perigo, alegai-me a ingenuidade a quem dizer ouvir-vos. Mas nada do que me fizerdes vai alterar o passo que dei naquele instante; nada será capaz de mudar o que fiz e o que quis.

Eu desejei aproveitar a oportunidade e dar o fora dali.

Tudo bem, tudo bem. Eu poderia ser sequestrada. Assaltada. Estuprada. Afinal, quem diabos era Marcos Coelho, e o que o tal desconhecido misterioso pretendia comigo? Não acreditei, porém, que a escola o autorizasse levar-me dali se ele não lhe houvesse provado sua confiança; e, por isso, pensei estar segura. Talvez haviam confundido a Marcela cuja presença ele requisitava, e não doeria em mim pôr-me os pés para fora daquele lugar tomando vantagem da situação.

Segui corredor afora, bem sozinha, tal como Chapeuzinho caminhara um dia pelas estradas que a levariam para a casa de sua avó. Soltei-me os cabelos escuros até então presos em um coque e deixei que um suspiro me escapasse por entre os lábios. Não havia problema ou razão para me preocupar.

Assim eu desejava, pelo menos; contudo, depois de dobrar à direita após os escaninhos, mal dei três passos e presenciei o momento que mais me desencadeou sofrimentos. Se não fosse por aquele instante, eu talvez evitaria uma das tragédias que mais me entristeceram. Eu talvez impediria uma das piores visões que já tive.

Vip estava bebendo água bem próximo à saída da escola.

- Cel – ele me cumprimentou com seu famoso desânimo de cansaço – O que faz aqui?

Ok, eu não fazia ideia de como respondê-lo, mas estava certa de que deveria mentir. Tal certeza se concretizava por motivos óbvios – primeiro, porque nós estávamos muito próximos da portaria, e um dos porteiros da escola poderia me ouvir confessar minha fuga; segundo, porque eu sabia que preocuparia meu amigo e, tendo ele razões ou não para me repreender por aquela ação, eu preferia privá-lo de expô-las a mim. Inventei, portanto, a primeira coisa que me subiu à cabeça.

- Minha tia veio me buscar – disfarcei meu nervosismo colocando uma mecha de meu cabelo ondulado para trás da orelha; eu normalmente não sabia mentir.

- Pra quê?! Você acabou de chegar — juntou as sobrancelhas em desentendimento.

- Ér... – balbuciei, mordendo o lado de dentro da boca em seguida – Ela quer me levar para conhecer um professor particular. Ele só tinha horário agora.

"Oi?!", repreendi-me mentalmente. "Professor particular?! Sério mesmo, Marcela? De onde essa surgiu?"

- Sua tia? – ele já desconfiava das minhas palavras, ou pelo menos era isso que seu tom de voz me revelava – Preocupada com você?

- Na verdade... – "pensa, pensa, pensa" – Ela quer que eu arrase no vestibular da USP para eu mudar para São Paulo e deixá-la de vez.

Eu. Estava. Impressionada. Com. A. Minha. Própria. Agilidade. Uau. Isso era muito raro de acontecer.

Agora eu o convenci.

- Entendi... E você volta para a aula a tarde, pelo menos? – indagou-me.

- Sim – assenti – Te vejo mais tarde.

Dei-lhe um beijo na bochecha e fui-me embora. Mal sabia eu para onde estava indo, ou o que me esperava em meu destino. Se soubesse, talvez eu tivesse preferido conversar com Pedro sobre as férias tediosas que eu tivera.

Ou talvez tivesse preferido ouvir a Vip, dizer-lhe a verdade e não dar passo algum para fora dali.

Mas não havia como escapar; era o meu destino que vinha até mim.

Acenei para o porteiro, que já estava ciente de minha saída, e me fui embora da prisão chamada escola. O dia não estava tão bonito lá fora; o céu, de um azul claro morto e sem vida, parecia arrastar-se pelas horas em tédio completo. As nuvens pensava estarem me encarando com olhos de deboche, olhos de desgosto ao que eu fazia e ao que vinha pela frente. Como se o mundo, não aprovando minhas ações, houvesse se tornado frívolo e passasse portanto a julgar-me de esgueira. Uma análise devidamente calculada e condenada foi então feita pelos raios de sol, pelo vento frio e pelos pássaros a voar, e algo me dizia que eu não seria absolvida do erro que ali cometia.

Primeiramente, confundi-me ao não encontrar alguém lá fora. Imaginei estar sozinha comigo mesma, talvez apenas sob a companhia dos segredos que me aguardavam. O que soava bem, já que o que eu pretendia era mesmo matar aula e rondar o bairro a pé e sozinha. Mas uma mão surpreendeu-me ao agarrar-me o pulso, e logo eu me empalideci ao ponto de estátua; o sangue parecia ter sido drenado de meu corpo, como se aquela mão me tivesse tomado a vida por meio de um mero toque. Tive dificuldades em voltar-me para quem quer que estivesse atrás de mim; um homem alto, de ombros largos e olhos secos, vestido em um terno cinza, mostrava-se inexpressivo. Ele ergueu as sobrancelhas grisalhas e crespas para mim e soltou meu nome:

- Marcela Moira? – sua voz não conseguia me confortar, fazendo-me arrepiar ainda mais que o tempo de inverno a que estávamos submetidos.

Não conseguindo lhe mostrar o timbre de minha voz, uma vez que o medo o havia roubado de mim, simplesmente sacudi a cabeça em sinal de afirmação. Eu estava tão petrificada ao saber que alguém realmente me esperava que eu nem pensei em mentir meu nome e, quem sabe, talvez conseguir retornar à aula.

- Sou Marcos Coelho – ele me soltou e estendeu a mão para mim.

Não sabia se eu o cumprimentava ou não. Fiquei, portanto, fitando-lhe a mão tal como se estivesse tendo um ataque de pânico. "Ninguém confundiu a Marcela", pensei comigo mesma. "Ele realmente estava esperando por mim". E, por mais que eu repetisse em mente essas frases simples e óbvias, meu cérebro não parecia assimilar o que estava acontecendo. Eu não conseguiria fugir, não conseguiria retornar e nem conseguiria reagir – aquele homem aparentava ser forte demais para minhas pernas bambas e frágeis.

Sua mão ainda estava estendida perante meu olhar. Eu não a apertei, apenas voltei a analisar o semblante do desconhecido que se apresentava para mim. Notei que ele tinha uma cicatriz no alto da testa, bem rente ao princípio do cabelo; seria uma consequência de alguma briga em que ele se metera?

- Quem é você? – minha voz soou tão fraca quanto o meu potencial físico.

O tal de Marcos recolheu a mão.

- Sou representante de uma empresa chamada OSH, e tenho assuntos a tratar com você – respondeu-me em tom uniformemente sério.

- Que tipo de assunto? – retruquei; meu coração estava cada vez mais acelerado.

- É o que vamos tratar na reunião para a qual pretendo te levar – embora demonstrasse serenidade, eu não era capaz de reagir de tal maneira – Não se preocupe, sua tia Clara já está ciente do que está acontecendo.

"Minha tia... Clara? Mas o que diabos está acontecendo?"

- C-como assi...

- Acredito que você tenha recebido nossa carta ontem – não me permitiu gaguejar minha fala até o fim.

O desconhecido ergueu uma das sobrancelhas em minha direção, como se me interrogasse. "Então a carta era deles? Dessa OSH?"

Eu consenti.

Com uma das mãos, ele tocou meu ombro e, com a outra, indicou-me um carro preto cuja presença eu nem havia notado.

- Vamos? Prometo que você retornará antes mesmo do almoço.

- Minha tia realmente está ciente disso? – sem tirar os olhos do carro, confirmei o que ele me havia dito.

- Ela mesma autorizou sua saída da escola – afirmou; parecia convincente – Então?

Eu fraquejei. Não sabia como agir. Não sabia no que acreditar. Nunca ouvira falar de tal organização e muito menos queria ouvir falar.

- Tenho opções?

Ele mordeu os lábios.

- Apenas confie em mim – como se ele soubesse que somente esse pedido não me seria suficiente, acrescentou: – Ou no destino que seu pai desejava para você.

E meus instintos me levaram adiante, colocando-me dentro daquele carro, ao lado de meu novo amigo Marcos Coelho.

Adianto-vos que minha ingenuidade permitiu-me confiar naquele completo estranho simplesmente porque, além do funcionário da escola ter dito que ele possuía autorização de meus responsáveis legais, Marcos mencionara duas de minhas palavras favoritas: destino e pai. Sei que agi erroneamente, sei que não deveria ter aquiescido quanto ao pedido que o grisalho me fazia, mas não pude resistir ao que meu coração me mandava fazer. Embora descobrisse, um tempo depois, que aquilo não se tratava de assalto, sequestro ou estupro, tenho consciência de que minha postura naquele instante não fora correta, e peço-vos que me perdoeis e nunca me imiteis.

A verdade, contudo, era que a carta me intrigara, e dela eu queria saber além. Então, como da vida eu já não esperava mais nada, e talvez a ideia de um perigo não me amedrontasse tanto assim, fui-me em busca do que almejava. Gostava de pensar que, entrando ou não no carro, eu não tinha nada a perder, apenas a ganhar; nem o fôlego ali me contava como importante, e deixá-lo ir seria como dar um suspiro, um adeus à vida que já não me fazia diferença há tempos.

Sim, eu era feliz, e eu queria muito viver. Sentia, porém, que algo me faltava, algo sem o qual não valia a pena ter vida, e sentia ainda mais que esse algo poderia estar ali, naquele carro, esperando por mim. Outra vez, reafirmo que mesmo assim não deveria ter seguido em frente, que qualquer um poderia ter me dito tudo aquilo que ouvi. Mas erros são diários. E este fora o meu.

Era frio dentro do carro, mais ainda do que o clima de inverno das ruas desertas de minha cidadezinha natal. Marcos sentou-se ao meu lado, aconchegando-se por cima do couro preto do estofado, e ficou a sussurrar palavras aleatórias em um microfone que pendia de uma de suas orelhas. De início, tentei interpretar o que ele dizia e, quem sabe, assim me acalmar os nervos a respeito de toda aquela situação. Mas nada do que ele dizia fazia sentido; por isso, apenas acomodei minha cabeça para trás e fiquei a observar a paisagem que se passava diante de mim.

Em alguns momentos da viagem, entretanto, meu colega de banco percebia o quão transtornada eu parecia e, bem, tentava me acalmar. Não, as tentativas dele, muito embora fossem até movidas por boas intenções, não me ajudavam a respirar melhor. Eu só tentava enfiar na minha cabeça que minha tia havia me autorizado sair com ele e que, por isso, estava tudo bem.

Não me lembro, hoje, do caminho pelo qual passei. Lembro-me de que não era nem tão comprido nem tão curto; lembro-me de que, na época, não saberia repeti-lo de maneira alguma. Tentei uma vez fazê-lo, vasculhando as entranhas de minhas memórias, contudo, não fui capaz de executar nem um terço do que aquele carro preto havia percorrido comigo. Entramos em ruas cujos nomes nunca ouvi falar, cruzamos avenidas que eu não imaginava existirem anteriormente. De qualquer forma, foi frente a um prédio de fachada espelhada que o automóvel enfim parou.

Marcos não falou mais nada. O homem simplesmente sussurrou algo em seu microfone e saiu do carro. Desta vez eu sei repetir o que ele disse, mas apenas porque me foi marcante, e não por ter me soado familiar. "Número dois apresenta-se".

Se para vós, caros leitores, tal fala fez algum sentido, então deduzo que sois mais inteligentes do que eu. Naquele momento, nenhum sino tocou em meus ouvidos, nenhuma luz acendeu-se diante de meus olhos. Eu simplesmente foquei minha atenção no meio do nada, que, no caso, era o para-brisa do carro, mais propriamente dizendo, e pus-me a interpretar o que fora aquela frase. Devo confessar que acabei sendo interrompida pelo som de uma porta se abrindo. A minha porta se abrindo. Sim, Marcos havia aberto minha porta para mim. Era hora de pôr os pés para fora daquele carro.

Era um prédio muito chique aquele no qual me fizeram entrar em seguida.

Acompanharam-me no elevador, até o décimo oitavo andar, três homens de terno – sim, o Marcos está incluso nesta conta. Logo, fui parar em um salão redondo bastante iluminado. O piso era de um mármore branco bem polido; as paredes, também brancas, carregavam retratos emoldurados de vários personagens que, na época, eu não saberia identificar. Um lustre de cristais imenso pendia do centro da sala, iluminando uma mesa oval laca – pois é, que também era branca – revestida com um vidro espelhado. A parede dos fundos, oposta à mim, não era bem uma parede. Era uma janela gigante.

É, ledes corretamente. Era uma parede vidrada. Havia vidro do topo aos pés, da esquerda à direita. Eu conseguiria ver a cidade inteira dali.

Senti-me a garota mais bem tratada do universo. Mal tinha adentrado o cômodo e um homem bem vestido, devo dizer que relativamente alto, surgiu com uma bandeja de prata me oferecendo:

- Aceita uma água, café, cappuccino, biscoito...? – mas meus olhos, ahn, focaram-se mais no bigode bem delineado dele do que no que ele trazia em mãos.

"Marcela, responde, Marcela, para de olhar para esse bigode, Marcela!"

- Er, não, am, muito obrigada.

Era um bigode de desenho animado, eu juro.

Mas ainda não haviam me feito sentir à vontade; eu não tinha encontrado ninguém conhecido até então. E isso me aterrorizava.

- Acalme-se – outra vez, Marcos percebeu meu nervosismo – Você está segura, eu prometo – e me estendeu a mão – Venha comigo.

Fizeram-me sentar perante a mesa. Fiquei em frente à janela gigante, oposta a uma poltrona cujo tamanho se sobrepunha ao das demais cadeiras ali presentes. Marcos Coelho acomodou-se ao meu lado, enquanto os demais homens espalharam-se ao meu redor. Não demorou muito para mais pessoas chegarem até ali e nos acompanharem sob o lustre.

Por algum motivo, esperávamos mais alguém que ainda não estava lá. Contei quantos já haviam marcado presença: comigo inclusa, éramos oito. A poltrona diante de mim e a cadeira ao meu lado esquerdo ainda se mantinham vazias.

Foi quando o apito do elevador denunciou a chegada dos que tanto nos faltavam.

Um homem barrigudo e...

Minha tia Clara.

Sim, eu consegui respirar melhor depois que ela chegou, muito obrigada pela preocupação.

Tia Clara ficou ao meu lado e o homem barrigudo à minha frente. Algo me dizia que eu e ele éramos as grandes atrações daquela reunião, pois, er, estávamos no centro da mesa.

Sim, ahn, isso conta na minha cabeça.

- So... – o barrigudo declinou sua poltrona para trás e cruzou as mãos em cima da enorme pança que carregava consigo – Shall we begin?

"Ele realmente quer falar em inglês comigo?", foi a primeira coisa que me passou pela cabeça.

No entanto, um outro rapaz, que, por sua vez, parecia bastante magricela – ou este julgamento é fruto da comparação entre os dois? – repetiu as mesmas palavras do barrigudo:

- Então... Podemos começar? – deduzi que o homem era tão importante ao ponto de levar consigo um tradutor por aí.

É agora que tereis uma pequena conversa comigo, caros leitores. Sim, pode ser uma conversa opcional. Estais livres para pularem alguns parágrafos e caírem direto na parte em que algo começa a coçar em meu bolso, motivo pelo qual eu enfio minhas mãos nas calças e encontro um papelzinho lá no fundo, bem amassado, bem descuidado. Eu, no entanto, prefiro que não o façais; prefiro que mantenhas vossas atenções em mim, neste devido parágrafo que aqui começo.

Sei que minha vida parece um pouco louca demais até este momento, sim. Comecei narrando o dia em que tive minha primeira visão de um morto; posteriormente, comentei acerca da carta que me assustara; agora, narro-vos o momento em que entrei no carro de um desconhecido e fui parar em uma mesa com um gordo, minha tia e, bem, vários homens enfiados em ternos de grife. Atualmente, isso para mim soa muito normal; mas, naquela época, tudo ainda me dava calafrios. Nunca havia visto um morto no espelho antes e, posteriormente, encontrado um retrato da visão vagando pelo jardim de minha casa. Nunca havia recebido uma carta aleatória, ou entrado num carro qualquer, ou comparecido a uma reunião com minha tia Clara.

Estava devidamente assustada, só não sabia por onde começar a me acalmar.

Tudo bem, Marcos estava autorizado a me levar da escola. Tudo bem, ninguém ali me desejava mal, exceto por minha querida titia. Tudo bem, a visão poderia ter sido apenas um surto qualquer, assim como a foto, assim como qualquer outra coisa que por ventura me houvesse acontecido de estranho na vida.

Mas eu estava completa e inteiramente assustada.

Apertei meus joelhos como se aquilo fosse me tirar dali imediatamente. Belisquei-me uma, duas, três vezes. Eu não acordava. A situação não mudava. Foi neste momento, bem, que eu senti a tal coceira na parte lateral da coxa, quase próxima à virilha. Era algo que me estava enfiado dentro do bolso direito. Coloquei a mão no vão da calça e meus dedos tiveram a honra de encontrar um pequeno papel socado lá no fundo. Desdobrei-o. Mas por que? Por que havia de ser tão curiosa? Por que havia de tê-lo desdobrado? Por que?

"Não há endereço exato para seu destino, pois é o seu destino que virá até você – 04 08 20 15 09 01".

Era a mensagem do biscoito da sorte.

Minhas sobrancelhas se uniram. Quando eu a colocara ali? Não me lembrava de tê-la posto no bolso da calça, muito menos de tê-la levado para a escola.

- What have you found there, little girl? – era o barrigudo que perguntava.

- O que você encontrou aí, garotinha? – e seu capacho que o traduzia.

Ergui meu olhar e encontrei todos da mesa me encarando com curiosidade. Se eu fiquei constrangida? Mas é claro que não...

- Er, am... só um papel de bala – e cocei a nuca, tentando disfarçar minha vergonha – Que horas são? O Marcos me prometeu que eu voltaria antes mesmo do almoço – falei qualquer coisa só para mudar de assunto.

Um dos homens esquecidos do outro lado da mesa me respondeu, enquanto o tradutor cochichava tudo no ouvido do gordo(ão).

- São nove e um.

- We have plenty of time – falou em seguida.

E, enquanto o magricela me dizia que aquilo significava "nós temos muito tempo", assustei-me com os números. Eu os havia lido em algum lugar. Nove. Um.

Nove. Um.

Foquei a mensagem do biscoito da sorte outra vez.

"...04 08 20 15 09 01"

Era hoje, dia 04/08/2015, às 09:01 horas.

Empalideci-me e, de tanto que já estava assustada, senti minha pressão cair como as águas de uma cachoeira. Não hesitei em pedir um dos biscoitinhos ao rapaz do bigode engraçado, que, prontamente, veio a me servir. Pela primeira vez, minha tia apertou uma de minhas mãos, como se me desse apoio. Eu já ia sorrir para ela, em sinal de gratidão, quando ela murmurou baixinho em meu ouvido esquerdo:

- Por favor, tente não estragar isso, Cecela.

É, eu abri o sorriso, só que ironicamente.

- Pode deixar – retruquei.

O gordo, que depois vim a descobrir que se chamava Gearalt Crewe, levantou-se de sua cadeira.

- Is she already practising? – dirigiu-se encabulado à minha nada-querida tia.

Quando seu braço direito abriu a boca para traduzir, o homem enfiou-lhe o dedo perante o nariz como se ordenasse plena quietude. Percebi então que, em seu dedo mindinho, estava posto um anel dourado com uma pequena pedra verde encravada.

- Of course not – o sotaque de tia Clara era terrível – I've never told her a thing.

Ela parecia encurralada por um grande pitbull em um beco sem saída. Uma gota de suor pingou-lhe da testa envelhecida.

Eu sabia, no entanto, falar inglês. Minha própria tia obrigara-me a fazer aulas sobre o pretexto de que eram "ordens de minha mãe". Devido a isso, eu sabia o que conversavam: Y desejava saber se eu já estava "praticando", e Clara o respondera que não, que ela nunca havia me contado uma coisa sequer.

Voltei-me para ela imediatamente.

- Contado o quê? – mas a velha me repreendera tanto com o olhar que eu, mesmo curiosa, matei o assunto e só deixei para desenterrá-lo mais tarde.

- Miss Moira – dessa vez o gordo conversava comigo; meu sangue gelou, parando-me a pulsação já recaída pelo susto – What has happened to you?

- Srta. Moira, o que aconteceu com você? – ele foi enfim autorizado a falar.

Tornei-me para tia Clara, que ainda parecia um tanto reprimida e assustada. Perante ao seu estado, resolvi, novamente, omitir a realidade:

- Eu só tive uma queda de pressão – frase essa que foi traduzida para o inglês, junto com a que eu expeli em seguida: – Prometo que nada mais irá atrapalhar a nossa reunião, sr...

- Crewe – Marcos Coelho completou-me – Gearalt Crewe.

- Sr. Crewe – corrigi-me.

Ele aquiesceu com a cabeça e, após tamborilar os dedos sobre o vidro espelhado da mesa, tornou a se sentar. Teve continuidade, portanto, a tão estranha reunião que começara minutos antes. Descobri que o tal barrigudo importante à minha frente era, nada mais, nada menos, que o vice-presidente da tal OSH. OSH, de acordo com o que me disseram, significava Organização Secreta Humanitária. Pois é, brega desse tanto. E o propósito daquilo tudo eu vim a descobrir que era um convite: eles desejavam a minha participação no mais novo projeto que seria iniciado na África.

Como podeis imaginar, eu também não entendi tanta formalidade. Não compreendi para que precisava de tanta burocracia e sigilo para iniciar um grupo de caridade, muito menos o porquê de eu, justamente eu, ter sido convidada. Ah, e eu não fora convidada por qualquer um; eu fora convidada pelo vice-presidente em pessoa.

Conforme minha natureza me programara, já vos alego que fui insolente ao ponto de expor abertamente minhas dúvidas.

- A questão toda, – o magricela me traduzia as palavras de Crewe à medida em que elas eram ditas – é que temos lhe observado bastante nos últimos meses, e seu perfil se encaixa exatamente com os requisitos. São poucos os escolhidos pelo mundo, mas estes recebem bolsa de estudos, moradia e alimentação de primeira qualidade...

Fui incapaz de ouvir sem tirar algumas conclusões a respeito. A primeira, que mais me foi uma impressão, constava no mais puro pensamento de que a OSH, como uma empresa de imenso valor e pouca fama, era uma das melhores maneiras de conciliar minha futura carreira e um hobby que, desde pequena, eu admirava. A segunda, por sua vez, era uma das que eu mais apreciava: livrar-me-ia de minha tia Clara! Mudando para a África, nunca mais precisaria de vê-la na vida! E a terceira e última, sorrindo vos conto que se resumia ao meu pai. Meu pai. "Então era por isso que Marcos havia me dito que aquele era o desejo de meu pai me chamando", pensei de bochechas erguidas. Era uma das coisas que ele mais gostava de fazer: ajudar. Ele possuía até uma ONG antes de morrer.

Tinha certeza de que era o sonho dele me ver trilhando o mesmo caminho; pois é, a OSH realmente vinha me observando.

- E quando eu iria? – comecei a me admirar pelo assunto; preciso dizer que meus olhos brilhavam em demasia, refletindo a luz de todas as estrelas pregadas em meu teto?

- Em uma semana – Marcos me respondeu.

Seria em pouquíssimo tempo.

- We hope you accept our invitation... – abriu o maior sorriso de todos – Miss Moira.

E o importantíssimo homem com quem conversávamos deixou a sala acompanhado de seu tradutor, deixando-me ali na maior e mais profunda dúvida de todas.

Eu abandonaria ou não minha vida para nunca mais olhar para trás?

Fiquei com isso na cabeça, martelando, martelando... Aceitar ou não o convite que ali me faziam? Eu dispunha perante mim os prós e os contras, analisando cada um mais do que uma questão de matemática. O lado bom estampava e gritava à minha vista: escolhe-me, eu melhorarei em mil por cento tua vida. Trar-te-ei mais flores brancas, mais sorrisos sinceros, mais sucesso do que qualquer outra opção que escolheres. E, naturalmente, este lado fá-lo-ia com circunspecção. Partindo em uma semana, eu cumpriria com o que eu e meu pai sempre sonhamos em poder construir juntos: um projeto solidário. Além do impulso que minha carreira tomaria dali pra frente, com estudos pagos, moradia, alimentação...

Era um sonho que se fazia de realidade.

Tudo, porém, tem um lado ruim: mesmo as flores brancas têm espinhos. Os sorrisos sinceros só se formam frente ao conhecimento de que existem longas decepções. O sucesso é precedido de muitas, mas muitas, falhas. E é em vista dos espinhos, das decepções e das falhas que eu me pus a refletir durante toda a jornada de volta à escola. Será que eu gostaria de deixar minha vida, ou melhor, Vip, para trás? Ele era, desde a ida de meus pais, a única família que eu tinha.

Consumi-me com a dúvida. Optei por não contar a meu amigo a respeito da reunião ou de qualquer outro detalhe daquele dia; optei por persistir na mentira que já lhe havia contado pela manhã. E assim o fiz por temer sua falta de egoísmo; por temer que seu amor por mim e por nossa amizade o levasse a me incentivar o voo. Eu sabia, no fundo, que ele gostaria que eu lutasse por meu futuro, e não pelo meu presente.

Resolvi, portanto, tomar aquela decisão sozinha, mantendo a OSH como meu pequeno e maravilhoso segredo.

Cheguei na escola e o vi, pela janela de vidro do automóvel, esperando-me no portão. Vip escorava-se contra a parede bege clara, olhando para o nada através de seus óculos ray-ban que costumava usar para leitura. Abri um sorriso ao notá-lo ali, esperando minha chegada, ainda insistindo em nosso tão famoso ritual de almoço. Desci do carro preto sem nem mesmo me despedir de Marcos, ou até de minha – eca – tia Clara que resolvera voltar conosco.

Corri até meu amigo e estalei os dedos perante seu olhar para acordá-lo de seu estado de transe.

Ele sorriu ao ver-me ali.

- Boa... – fingiu que olhava no relógio, ao passo que só fitava seu pulso nu – Tarde, dona Cel.

- Boa tarde, Vip – dei uma risada – Me explique os óculos! Estava por acaso lendo nas estrelas o quanto eu sou incrível?

Ele revirou os olhos.

- Às vezes eu só gosto de ver o mundo em HD – e tirou-os; eu, contudo, impedi-o de guardá-los em sua mochila – Não entendi, você reclama se estou com eles, mas reclama também se estou sem?!

- Não estou reclamando bobão, só estranhei... – tornei a colocá-los em seu rosto – Fique com eles, parece mais intelectual – e, balançando a cabeça em sinal de afirmação, completei: – Mulheres gostam de intelectual.

Vip riu.

- Tudo bem – e me deu o braço para que eu o acompanhasse – Estava pensando em almoçar um hambúrguer hoje, o que acha?

- Eu acho que você está com preguiça de caminhar até um restaurante decente.

- Você me conhece bem. Hambúrguer então?

- Hambúrguer será.

E fomos andando, de braços entrelaçados, conversando sobre qualquer coisa aleatória que nos subisse à cabeça. Chegando na hamburgueria, sentamo-nos em uma mesa para dois próxima à janela, pois, quando o assunto acabava, eu gostava de conversar com ele sobre as pessoas que passavam pela rua afora. Bem, na verdade, eu puxava esse tipo de assunto por não gostar de deixá-lo calado: no instante em que Vip se calasse, ele abriria a mochila e tiraria uma bíblia nova para ler.

E eu odiava ser ignorada.

Acabávamos, portanto, sempre comendo perto da janela, comentando sobre fatos estranhos, discutindo a respeito daqueles que passavam por nossos olhares, comendo sempre comidas diferentes que estavam – não sei por que motivo – no mesmo cardápio. Sim, eu era fã do almoço saudável e ele, por sua vez, das gorduras localizadas.

Havíamos chegado lá mais ou menos uma hora da tarde, creio eu. Até a comida chegar, eu diria que eram uma e meia. Até eu comer – sim, sou lerda, ao passo que ele era rápido até demais – duas e vinte. E nós resolvemos estender o papo até a aula começar, o que nos deixava com mais uma hora de folga.

Completara três e meia da tarde, no entanto, e, como os bons alunos que somos, optamos por perder os dois primeiros horários do turno.

Ele comprou um sundae para dividirmos.

- Sabe o que eu achei bizarro a respeito daquela menina? – e apontou para uma jovem que passava chorando – Ela está chorando, desesperada, mas não carrega nada consigo. Deve ter fugido da casa de alguém.

- E deixado as coisas lá? – indaguei, pegando mais uma colherada do sorvete de baunilha.

- Sim... Seria por medo de ficar algum tempo a mais? – ele só desviou o olhar quando a perdeu de vista.

Eu ergui as sobrancelhas.

- Talvez os pais dela sejam como minha tia – dei de ombros – Eu não a culparia por fugir.

- Nem eu – ele avançou sobre o sorvete.

- Quanto ficou o sundae? Vou te dar o dinheiro da minha metade...

- Você sabe que não precisa – ele me olhou com seus olhos azuis sinceros.

Sorri.

- Sim, eu sei – mas avancei, mesmo assim sobre a notinha que estava sobre a mesa – Só que eu insisto.

Desci minha atenção no papel em minhas mãos, procurando a informação que desejava. No entanto, meus olhos, teimosos, recaíram sobre o endereço do estabelecimento em que estávamos... Avenida do contorno, número 3867.

Minhas pálpebras caíram lentamente a fim de focar melhor as letrinhas ali impressas.

Onde eu havia lido esse número mesmo?

- Ei, Cel – Vip me chamou a atenção; eu me voltei para ele – Que horas são mesmo? Nós não podemos atrasar, ou perderemos o terceiro horário também.

- Sim... – chequei o relógio – São quatro.

- Quatro e o quê?

- Quatro em ponto.

Não sei por que razão, mas minha respiração bruscamente parou. Eu parecia ter ficado tão desesperada a ponto de entrar em estado de pânico, não conseguindo nem ao menos inspirar mais. Meu peito gritava por oxigênio; minhas narinas, no entanto, pareciam incapazes de conduzi-lo até o pulmão. Eu estava ofegante, preocupada e transtornada com algo que eu completamente desconhecia.

Mal preciso dizer que Vip ficou ainda mais louco do que eu.

O garoto foi até minha cadeira, com os olhos quase saltando da órbita de tão desconcertados. Eu, contudo, não sabia como voltar a mim mesma. Tudo o que eu me lembro é que minha atenção se tornou para a rua, onde eu vi um homem vestido em um terno preto encarar-me profundamente. Eu não fazia ideia de quem era, e muito menos queria saber; no entanto, não fui capaz de focar outra pessoa senão ele. Por mais que Vip me fizesse perguntas, me ajudasse a retomar o fôlego, ponderasse chamar uma ambulância... Eu não conseguia desgrudar meus olhos castanhos daquele que se punha lá fora.

Até que ele sumiu de minha vista, e minha respiração enfim voltou ao normal.

- Cel, você está bem? – ele pôs a palma da mão direita em minha bochecha, voltando-me para seu rosto desorientado.

- Sim. Agora sim – e, fitando outra vez a janela, eu completei: – Vamos para a escola.

Tudo bem, tudo bem. Vou poupar-vos da conversa que tive naquele instante, na qual Vip me dizia convicto que não acreditava que eu tinha condições de retornar à aula. Eu, contudo, sentia que precisava da escola; que precisava ver em minha rotina se eu tinha vontade de apagá-la em virtude da proposta que me fizeram. Por isso, não contei a meu amigo que, no dia anterior, eu já havia perdido o fôlego outra vez. Eu só insisti em pegar caminho de volta ao colégio, onde já deveríamos estar.

Foram só dois horários até retornarmos para casa. O escolar nos deixou em nossos respectivos lares e, eu, mantive-me quieta ponderando cada uma de minhas decisões. Será que eu estava pronta para deixar tudo para trás? Ou melhor, será que eu estava pronta para deixar Vip para trás? Porque, honestamente, das aulas eu já havia percebido, com aquele dia, que eu não sentiria a menor falta.

Entrei pela porta da frente e vi minha tia sentada – sozinha, como sempre – na mesa enorme de jantar da sala. Ao ouvir o som da porta se abrir, ela se voltou completamente para mim.

- Marcela?

Devo constar que eu nunca havia escutado meu nome sendo soado da boca dela. Sim, ela só me chamava de apelidos constrangedores que eu detestava.

- Sim? – e tranquei a porta.

- Preciso conversar com você – ela se levantou e, indo ao meu encontro, lançou-me a seguinte pergunta: – O que você achou da proposta da OSH?

Virei-me para ela, após aquele dia, já com as palavras na ponta da língua. A pergunta não saíra de minha mente por todo o tempo, sim, eu vos assumo que fiquei na dúvida por longas horas; porém, ali, após meu almoço com Vip, após meu dia na escola, a resposta parecia ser mais simples do qualquer outra. Abri o maior sorriso e, com três palavras, soube exatamente o que dizer:

- Eu não vou.

Eu não iria. Não deixaria meu melhor amigo para trás por nada. Não o abandonaria para sempre, não abandonaria minha vida, por mais pacata e vazia que ela fosse. Por mais que eu não tivesse meus pais ou a juventude de volta. Eu não trocaria tudo o que custei a conquistar por uma viagem que me apagaria inteiramente um passado.

Nem que aquilo significasse ver minha tia gritar comigo todos os dias.

Ela, entretanto, não entendeu minha posição.

- Você o quê? – soltou, de sobrancelhas unidas.

Mas sua expressão não revelava raiva. Era surpresa. Mágoa. Incompreensão. Ela não esperava por aquilo e, por talvez nunca ter pensado que eu fosse declinar a oferta, tia Clara se mostrava contrariada e incrédula.

- Eu. Não. Vou – pensei que repetir mais calmamente fosse fazê-la digerir a situação.

- Eu escutei – nunca a vira tão calma em toda a minha vida. Minto; ela não estava calma, calma. Ela estava afobada, como se o problema não fosse me aturar vivendo naquela casa, e sim algo maior – Só não entendi o porquê. Você sabe o quanto me dediquei para conseguir essa proposta pra você? Foi uma amiga da família que te indicou para a vaga! Fiquei meses organizando a papelada toda pra viagem porque achava que, se eu te fizesse uma surpresa, você iria gostar. Afinal, não era seu maior sonho se dedicar às pessoas?

Revirei os olhos.

- É o meu maior sonho. Eu só não quero abandonar minha vida para... – e eu interrompi-me; na realidade, a incoerência interrompeu-me – Como você sabe que é o meu maior sonho? Eu nunca te contei, nós mal conversamos...

Ela engoliu em seco.

- Você não deve estar lembrada, mas já me contou sim.

- Tenho quase certeza de que não – a teimosia me continha, uma vez que o tom de sua voz falhava ao insistir na premissa que tanto defendia.

Tia Clara pôs as mãos na cintura.

- Isso honestamente não vem ao caso – ela bufou – Você tem de ir.

Não contive uma risada forçada ao ouvir tamanha apelação.

- A escolha é minha. E eu escolho ficar – já me preparando para subir as escadas, despedi-me: – E tenha uma boa noite.

Fui-me para o quarto, fingindo que não a escutava chamar-me de volta para terminar a conversa. Só que eu não desejava continuar discutindo o indiscutível; eu não queria ouvir motivos chulos para eu deixar meu mundo e minha vida para trás. Tinha conhecimento de que era uma oportunidade única e incrivelmente maravilhosa, mas eu não concordava em viver longe de onde meu coração morava. E ninguém era capaz de mudar minha mente.

A menos era o que eu pensava até então.

Até querer respostas.

Capítulo 4

No dia seguinte, desde o amanhecer do sol até as quatro da tarde, eu estava completamente contente pela decisão do dia anterior.

Bem, até as quatro da tarde.

Dentro dos limites da escola, chamaram-me pelo nome novamente. Dessa vez, no entanto, não me tiraram de sala em meio a uma aula qualquer – eu fui requisitada no intervalo. A diretora em pessoa chamara-me no pátio, buscando meu rosto em meio aos inúmeros alunos que ela, no fundo, desconhecia. "Marcela Moira", eu ouvi. Nem é preciso dizer que Vip, com quem eu lanchava, erguera o olhar desentendido para mim, ao mesmo tempo em que eu pulara de meu banco surpresa. O que queriam comigo? O que a diretora queria comigo?

O susto me manteve em estado de torpor por alguns segundos. Meu amigo cutucou-me e, com o olhar, repreendeu-me por ainda não ter me colocado de pé e respondido à quem me chamava. Fi-lo imediatamente. Meus pés bambearam quando eu soltei, em meio à todos, que era eu quem a diretora procurava. Sim, estavam todos os estudantes calados, apenas curiosos para saber quem era a tal Marcela e, ainda mais além, por que ela estava sendo requisitada.

Só não corei minhas bochechas ao ter todos os olhos pregados em mim porque, bem, no fundo, eu não era nem tímida e nem contrária à atenção.

- Preciso que você me acompanhe – a diretora me falou, fazendo com a mão um gesto que me pedia para juntar-me a ela.

Fomos, então. Subimos uns cinco andares, chegando num corredor que eu nunca vira antes. Acho que eram lá que ficavam os departamentos de atividades extracurriculares, como artes, música, teatro... Entramos na primeira porta à esquerda. Ela me deixara lá, só, sentada na primeira carteira. E tudo o que me dissera fora: "Logo virão conversar com você".

Não, não adiantou perguntar-lhe quem viria. Não adiantou insistir na resposta. Ela simplesmente virou seus cabelos loiros e curtos para mim, mostrando-me suas costas finas, e pôs-se para fora da sala.

O tempo se passou, talvez houvessem sido segundos, mas eu deduzi que estava esperando por uma eternidade. Já havia corrido meus olhos por toda a sala, visto todas as janelas entreabertas, todas as carteiras pichadas, todas as bolinhas de papel espalhadas pelo chão... Foi quando meus olhos pousaram sobre a minha própria mesa e eu vi, ali, grifado de caneta preta, várias palavras e um número de telefone. Não me recordo agora os primeiros algarismos, mas lembro-me dos últimos serem 3867. Revirei os olhos; aquele número já estava me perseguindo o suficiente.

Suspirei e notei, então, a demora de quem estivesse por vir. Não aguentei mais o mistério, para ele mostrei-me impaciente, e meu primeiro impulso, assim sendo, acabou se revelando em checar as horas. Eu resolvi olhar o relógio em um surto, esperando possivelmente que os minutos passassem mais rápido enquanto eu me punha ali sozinha.

Eram exatamente quatro da tarde.

O fôlego me foi tomado. Fiquei sem ar, em um tremendo desespero desconhecido e anormal. Puxava para mim oxigênio, contudo, ele não me descia aos pulmões. Ofegante, apertei-me a mão contra o peito, torcendo para não morrer naquela sala sozinha e curiosa.

Se minhas preces foram atendidas eu não sei, mas um homem alto, vestindo um terno preto e elegante, entrou logo em seguida.

Bastou me fitar para ele avançar para cima de mim.

- Você está bem? Está tudo bem?

Minha cabeça se embaralhou. 3867. Quatro horas. Afobação. Homem de terno.

- Saia, por favor – posso ter gritado – Por favor, saia daqui. Volte em um segundo, mas, agora, saia daqui.

Não sei porque, mas foi o que eu lhe pedi. Não sei porque, mas ele logo me obedeceu. Foi-se embora e se fez sumir em um curto segundo. E, como eu deduzia, minha respiração voltou ao normal assim que ele desapareceu de minha vista.

E eu não fazia ideia do que estava acontecendo...

- Está melhor? – ele colocou apenas a cabeça para dentro da sala. Eu nunca o havia visto antes; era um homem de cabelos compridos e encaracolados, pele escura e olhos grandes. Ele parecia preocupado.

Sacudi a cabeça, dizendo-lhe que sim, eu estava melhor. A menos fisicamente.

Psicologicamente, no entanto...

Eu estava transtornada.

O que diabos era aquilo?

- Me d-desculpe, eu não sei o que aco-nteceu comigo... – balbuciei com dificuldade.

- Eu imagino. Deve ser difícil para você – ele tornou a entrar, fechando a porta por trás de si.

Cerrei as pálpebras.

- O quê deve ser difícil para mim?

Ele ignorou completamente minha pergunta, erguendo sua mão em um cumprimento.

- Meu nome é Hugo, prazer.

- Marcela – retribui o aperto de mão.

Ele sorriu.

- Eu já sabia... – e, em um suspiro, sentou-se ao meu lado – O que te deixou assim, Marcela?

Não compreendi a curiosidade, mas fui honesta.

- Eu não sei, é meio estranho... – ao tentar apurar-me a resposta, acabei por soltar uma risada involuntária – Números, talvez? Não me ache estranha, eu...

- Não acho – foi rápido em sua fala – Acredite em mim, faz sentido. De alguma maneira, faz sentido o que está acontecendo com você.

"Mas o que ele quer dizer com..."

- Eu não posso te dizer muito, até porque não estou aqui para dizer coisa alguma, mas seja o que for, acredite em mim – seus olhos suplicavam-me para honestamente por fé no que ele expelia.

- O que você quer? – confundia-me.

Hugo pigarreou e endireitou a voz. Acho que ele havia desviado do real assunto que precisava tratar comigo.

- Estou aqui para me certificar de que você não desconsiderou a proposta da OSH – e franziu a testa – Nós precisamos de você trabalhando conosco.

Então era sobre isso que aquilo tudo se tratava. OSH. Senti-me estúpida por não ter previsto isso antes e, em um ímpeto nada calculado, resolvi de uma vez por todas recusar qualquer oportunidade que eles viessem a me apresentar.

- Na verdade... Eu já desconsiderei – soltei – Eu não quero abandonar minha vida.

- Mas que vid... – ele se interrompeu, voltando os olhos para o chão – Você precisa aceitar.

Aquela conversa estava ficando cada vez mais estranha...

- Não, eu não preciso. E não vou.

- Sim – ele segurou minhas mãos. "Por que ele está segurando minhas mãos?!", pensei comigo – Eu te prometo que se você vier, você vai entender tudo.

"Tudo o quê?! Isso é só um programa para promover ajuda solidária aos necessitados?!"

- Tudo como...?

O homem inspirou fundo e, após olhar ao seu redor, confessou-me:

- Eu já disse demais. Me desculpe – e levantou-se; entretanto, antes de sair, ele soltou: – Você não quer saber por que anda tão afobada?

E saiu de cena, dizendo "Nós nunca tivemos essa conversa".

Como. Assim.

Essas eram as únicas palavras que tomavam conta de minha mente após sua saída.

Caí-me dramaticamente sobre os braços, cerrei-me as pálpebras e visualizei bem a escuridão: para onde ir quando não se havia luz? Para onde ir perante a cegueira de meus dias? Via-me, no meio do caminho – da vida? –, em uma bifurcação; duas possíveis rotas se estendiam frente aos meus pés, mas nenhuma orientação me era dita. Sussurravam-me no ouvido esquerdo que a comodidade era melhor, uma vez que minha vida pacata não me insatisfazia, e sim me era ordinariamente digna. Essa rota eu já tinha por direito; essa, eu já conhecia tal como eu conhecia os detalhes sórdidos da morte de meus pais. No outro ouvido, contudo, mandavam-me pegar o caminho mais complicado, afinal, desafios eram sempre bem vindos, ainda mais quando condiziam com meus maiores planos para a vida.

E aí vinha aquela voz, a voz de Hugo, murmurar bem baixinho para mim: “Você não quer saber porque está tão afobada?”. E ele repetia, e repetia, e repetia, e repetia...

Como um eco, eu o escutei dizer-me aquilo dezenas de vezes, à mim não me soando coerente em uma sequer.

Não entendia de que maneira a OSH me esclareceria o que vinha atormentando meus dias. Para mim, não se passava do que diagnosticam usualmente como loucura, uma loucura que se comporta por meio de ataques de pânico, delírios e dèjavus. Acreditava eu ter uma falha no cérebro, uma pequena disfunção, que me fazia compreender o mundo de uma maneira surreal e irrealista. Não, caso vós estejais pensando que sou entendedora da psiquiatria ou da psicologia, alego-vos previamente que nunca estudei nenhum desses campos. O que vos contei, agora, é aquilo que minha mente ingênua da época se pressupôs a concluir perante tanta anormalidade.

Eu queria saber porque andava tão afobada. Queria, e muito. Eu queria seguir o caminho difícil, deixar tudo para trás, arriscar perder o que tenho de bom, comprovar a veracidade da fala de Hugo, comprometer-me a uma realidade que me pode trovejar os dias ensolarados. Eu só não conseguia; eu só não conseguia abandonar, por tempo indeterminado, a única família que tinha.

Eu não iria para a OSH. Eu não acreditava em Hugo. Eu não queria acreditar.

Abri os olhos, desfrutando ao máximo do incômodo que era esse primeiro contato com as luzes após minutos de cegueira. Era bom ver que a realidade que eu escolhera me esperava bem ali, na minha frente, embora me machucasse as pupilas o tal impacto com a claridade. Abri um sorriso forçado – pois, mesmo que satisfeita, eu tinha consciência do que estava abdicando – e me ergui. Fui para a sala de aula e, lá, impedi-me de fazer outra coisa senão prestar atenção nas palavras ditas pelo professor. Afinal, tudo estava resolvido, não? Na minha cabeça, eu era louca e não viajaria mais. Tudo o que me restava era lidar com os fatos, e fugir das aulas não me ajudaria em nada.

Foi Vip a primeira pessoa que eu vi quando sai de sala. Ele estava parado ali no corredor, encostado contra a parede, de óculos no rosto e livro nas mãos – sua típica pose de adolescente normal e culto, diferente dos colegas que se excitavam pelas aparências e pelas fofocas, mas também não enquadrado no grupo de estudos intensivos da escola. Fiquei contente, mais uma vez, em vê-lo por perto; ele sempre estava por perto. Eu poderia não ter pais, não ter tia, não ter ninguém, mas eu tinha a Vip. Isso era o suficiente para mim, e OSH nenhuma, muito menos teóricas respostas, poderiam superar o quanto essa amizade me fazia bem. O quanto eu desejava mantê-la até o fim. O meu fim.

- Então alguém virou importante para o colégio hoje! – ele soltou, vindo, assim que passei pela porta da sala, em minha direção.

- Sua aula acabou mais cedo ou você matou os últimos minutos? – indaguei, mudando de assunto.

Ele abriu seu sorriso maquiavélico de: há, é a segunda opção.

- Último horário é matemática, Cel. O que isso sugere?

Eu só consegui responder-lhe com uma curta risada, e nada mais. Ele, no entanto, seguiu com a conversa, levando-a por um caminho pelo qual eu não desejava percorrer.

- Mas agora quero saber de você, famosinha – e ergueu uma das sobrancelhas grossas para mim – O que a diretora queria com você no intervalo?

Empalideci-me. O sangue, por meu corpo, parou de circular por um instante. Se fui surpreendida pela pergunta? Ora, mas é claro que não. Era óbvio que a curiosidade voraz de Vip não cederia naquela manhã, já que esta não cedera jamais. A questão que domou-me a alma, encoleirando-me pelo pescoço e limitando-me a ação era outra: o que eu inventaria no lugar da realidade? “Nós nunca tivemos essa conversa", Hugo me havia dito.

Mas eu não queria mentir outra vez para Vip.

Foi quando eu achei a solução mais sensata para o meu problema: se a conversa não havia acontecido, apenas um vão restava-me naquela tarde, como um buraco no tempo ou uma aceleração bruta do relógio. Assim, se Vip queria saber o que teoricamente havia ocorrido, e o que ocorrera fora esse vazio que me arrematou as horas, era isso que eu lhe deveria contar. Pois bem, nessa confusão, enfiei-me na cabeça que não estava mentindo – e sim repassando a informação tal como ela me surgia em pensamento.

- Ela não queria nada – dei de ombros – Ela me levou até a sala de música por engano.

Ele franziu o cenho.

- Como por engano?

- Ela havia dito que alguém queria falar comigo, mas não houve conversa alguma. Então deduzi que ela havia se enganado.

- Entendi.

Sim, caso estejais estranhando meu raciocínio, alego-vos que ele me deixara com a consciência muito mais limpa.

E ele olhou para baixo, ou melhor, para seus pés andantes, e murmurou qualquer coisa engraçada que me fez rir. Poderia dizer-vos muito bem o que aconteceu depois nessa conversa – como Vip mudou de assunto drasticamente para falar sobre notas e opções de curso de faculdade – mas confesso que estou um pouco incapacitada de continuar. Meus dedos trêmulos não conseguem ilustrar tão bem os diálogos com Vip, uma vez que a nostalgia me amarra e me aperta o pescoço. Eu gostaria não só de narrar o momento, mas também de voltar até lá e viver tudo de novo, mudando apenas algumas poucas decisões que fizera. E é essa saudade, essa infeliz, que me impede de ser inteiramente aberta. Peço-vos desculpas pelas lágrimas que derramei nestas páginas e retomo com um momento do qual não sinto a menor falta.

Retornar-nos-ei à narrativa.

Estávamos já dentro do escolar, acomodados no nosso banco. Recordo-me de que aquele instante fora a primeira vez que pensei em como a janela me mostrava o tempo passar, como um borrão, diante dos olhos: quantos eram os que caminhavam, tranquilos? Quantos eram os que se sentavam nos bancos espalhados pela cidade e refletiam sobre suas vidas particulares? Quantos eram os que passavam por meu ver e ficavam lá atrás, distantes de mim, há quilômetros esquecidos no passado? Pode ser que eu nunca mais os veria; a menos não daquela maneira, naquela situação, naquele lugar. O tempo era uma constante metáfora para tudo aquilo que passava e, inevitavelmente, não voltava da mesma maneira que viera.

Talvez essa reflexão resuma em muito a fala de Vip que me tomou a atenção logo em seguida; que marcou o instante como devidamente trágico e, por hora, passageiro:

- Cel... – ele começou; eu desloquei meu foco para seu rosto. Estávamos calados fazia alguns minutos, e qualquer palavra de meu amigo me servia para quebrar o silêncio pensativo – O Pedro me procurou no recreio.

Meu coração pulou, sim – de susto. Mil e uma coisas voltaram à minha mente de uma vez. Memórias, sensações, angústias. Era o que acontecia toda vez que eu me lembrava do desastre que envolvia a mim e a Pedro.

Sim, do desastre.

Imaginai, primeiro, um casal de adolescentes indefeso e normal. Era o que eu e Pedro queríamos ser – era o que eu acreditava poder ser. Antes daquilo, confesso-vos que só havia tido dois únicos casos amorosos, que me espantaram por mil anos de isolamento e solidão. Meu primeiro beijo, por exemplo, fora minha primeira decepção com a humanidade, mas não por ter saído errado ou sido com a pessoa errada; fora decepcionante por ter me mostrado o horrível gosto do sangue a cada suspiro.

Agora, pensai em um Vip que, após ouvir minha trágica história de como eu havia perdido o “bv”, afirma "não, Cel, relaxa, foi azar seu" e, enquanto segura minha mão e fita bem meus olhos, ainda tem a coragem de completar a frase com: "da próxima vai ser bom, eu prometo".

Só que meu amigo teve a sua promessa quebrada e, eu, admiti que estava contaminada por alguma maldição horrenda cuja premissa fazia-me beijar bocas com gosto de sangue. Depois do segundo beijo, eu cansei de tentar. Já não costumava me envolver com outros caras de qualquer forma, então não foi tão difícil me manter distante do sexo oposto. Acabei me acostumando a ser autossuficiente e só.

Até, bem, Pedro.

Pedro era um cara meio estranho, bonito e curiosamente legal que entrara no colégio naquele mesmo ano, só que umas duas semanas depois do início das aulas. Como quase ninguém mudava de escola no terceiro ano, e muito menos depois dos dias letivos já terem se iniciado, ele chamou muita atenção da turma. Digamos que, em três semanas, ele já era amigo de todo mundo, já era alvo de todas as garotas e já era o queridinho dos professores.

Ele não me incomodava nem me alegrava as manhãs – por isso, eu não tinha nada a dizer a respeito dele na época. O dia em que conversamos pela primeira vez, se me lembro bem, foi no início de março, quando ele resolveu se sentar comigo por ter esquecido o livro de química em casa. Daquele dia em diante, as conversas se tornaram mais frequentes, quase que diárias, e fomos ficando mais próximos um do outro do que quaisquer outras pessoas pudessem ficar em tão pouco tempo. Vip ficara meio ciumento no início, mas isso até ele ver que o que havia entre eu e Pedro não era, exatamente, uma grande amizade. Eu realmente estava gostando dele e tudo o mais.

- Será que alguém vai esquecer a história sobre beijinho vampiresco, Cel? – ele abriu um sorriso safado para mim.

- Vip, fica na sua, viu? Agradecida.

- Tenho uma teoria – ele disse, ignorando minha repreensão – Cecel vai beijar certinho, vai ver que ela na verdade não beijava direito, vai descobrir que é muito bom, vai terminar com o Pedro e vai virar minha puta favorita!

Eu me voltei para ele.

- Daí Cecel vai se apaixonar por você, se casar com você, te matar e roubar sua herança!

- Achei cruel.

Mesmo Vip me irritando a respeito, contudo, eu evitava discutir qualquer coisa sobre o que poderia rolar entre mim e Pedro. A questão toda era que eu realmente não tinha coragem de beijar, já que pensava que o problema estava em mim. Na minha opinião, eu era a culpada por não saber fazê-lo direito e, sei lá como, eu acreditava ser capaz de machucar as pessoas. Tipo, fisicamente mesmo. Daí o tal gosto de sangue.

Por esse motivo, eu enrolei o menino por meses, até a festa da Marina, no princípio das férias. O dia do desastre; o dia em que o Pedro virou assunto proibido.

- Eu sei que não deveria estar falando dele – e estamos de volta ao episódio do escolar, em que Vip me conta que Pedro o procurara no recreio. Eu estava pálida e raivosa, no entanto, tentei não transparecer isso mostrando ao meu amigo um sorriso amarelo; acho que não funcionou – Mas pensei que você iria querer ter, sei lá, a opção de escolha entre ouvir o que aconteceu ou não.

Eu aquiesci. Sim, gostaria de ter essa opção. Não sabia, contudo, o que gostaria de ouvir. No fundo, temia qualquer coisa que pudesse se relacionar ao assunto proibido, o que naturalmente justificava sua classificação como proibido. Por outro lado, a curiosidade me consumia, e por essa ser uma das mais altas vozes falantes em minha cabeça, eu posso ter respondido um imediato:

- O que houve?

Vip mordeu os lábios e, tenso, disse-me a última coisa que eu pensaria:

- Ele disse que queria se despedir. O Pedro descobriu ontem que vai voltar à cidade natal. – meu amigo desviou o olhar para baixo, sem saber o que falar em seguida.

“Voltar à cidade... natal?!”

E foi assim que eu descobri que, um dia depois de eu tê-lo desejado há quilômetros de distância de mim, Pedro resolvera se mudar para nunca mais voltar. Não, a parte em que ele pretendia se “despedir de mim” nem me surpreendeu tanto de início – o que me fizera saltar da cadeira e unir as sobrancelhas em sinal de descrença fora a tremenda coincidência que havia acabado de ocorrer.

Vinte e quatro horas antes eu estava pedindo aos céus para que o rapaz não estudasse junto a mim.

- Tudo bem, Cel? – Vip se preocupou com meu silêncio.

- Por que ele mesmo não me disse isso em sala? – indaguei, talvez um pouco revoltada – Nós somos da mesma sala! Qual era o problema de me dizer em sala?!

Meu melhor amigo inspirou fundo, tentando manter a calma em meio à minha atitude exagerada. Eu estava claramente nervosa: minhas mãos tremiam, meu tom de voz aguçava-se e eu mexia a cabeça um pouco demais em relação ao normal.

- Pelo visto você nem notou que ele não estava em sala hoje... Ele só passou lá na escola pra pegar uns papéis que precisa pra transferência, e o horário coincidiu com o recreio – e deu de ombros.

Fechei os olhos e enterrei minha nuca no encosto do assento. Eu não tinha ideia de como me “despedir” de Pedro. Na verdade, não tinha ideia do porque ele fazia questão dessa despedida.

Nossa relação fora tão pouco duradoura e, ainda assim, tão problemática.

- O que será que ele quer? – ainda de pálpebras cerradas, soltei a pergunta em meio à quietude. Já estava mais calma, sim, mas a mente continuava divagando a mil por hora.

Só escutei a voz serena de Vip murmurar em meus ouvidos:

- Caçar vampiros. Você é a próxima.

Tive de abrir os olhos para espancar ele um pouquinho. Juro-vos que foi só um pouquinho.

- Já te pedi para nunca brincar com isso – soltei, meio raivosa, meio chorona.

- Eu vou brincar com isso até você me contar o que aconteceu entre vocês – respondeu-me.

- Você sabe que isso nunca vai rolar.

É, essa era a outra parte do assunto proibido – ele era tão proibido, mas tão proibido, que nem Vip sabia dele. Ninguém, de fato, além de mim e Pedro, sabia dele. Eu nunca tivera a simples coragem de pensar no que havia acontecido, muito menos contar e, embora Vip fosse meu melhor amigo e merecesse saber de cada detalhe de minha intimidade, aquilo em particular eu preferia guardar para mim. Mesmo que a proposta de meu amigo parecesse justa, eu ainda assim me manteria em silêncio.

Eu nem sequer havia o convidado para minha casa, mas ele foi mesmo assim. Dissera-me que queria passar um tempo comigo por temer um possível surto, um colapso, já que eu não estava nem um pouco contente naquela manhã. E não estava mesmo. Como se já não bastasse a confusão que Hugo me fizera nos pensamentos, eu agora tinha de lidar com a despedida de Pedro, algo para o qual eu não estava nem um pouco preparada. Se eu pudesse a vós descrever o estado de minha mente naquele instante, eu vos diria que ela estava igual a minha nécessaire de colares: todos os cordões se embolavam entre si em um mistério impossível de ser desvendado.

Jantamos um delicioso miojo sabor galinha, pois minha tia, estranhamente, não estava em casa naquele dia. Não que ela avisasse todas as vezes em que saía, mas, até onde me lembrava, ela nunca saía – motivo esse que me seria razão para estar preocupada, caso me importasse. Ainda bem que eu não me importava.

Pois então, jantamos bem.

Tendo passado toda a burocracia de lavar a louça, secar os pratos e tudo o mais, subimos as escadas espirais e demos de cara com meu quarto. O papo rolava fervorosamente – Vip me contava de uma menina, aparentemente muito bonita, que havia conhecido em uma rede social qualquer. O caso estava interessante pois, apesar de ser bem apresentável, ela era uma pessoa bem lerda, o que tornava tudo mais engraçado.

- Daí eu disse que gostava muito de Nirvana, e ela meio que me perguntou se isso era uma religião – ele soltou uma risada – Qual a lógica dessa pergunta?

- Eu responderia que sim – falei risonhamente – E ainda diria que você se comunicava com Deus através de lítio.

Ele segurou minha mão fortemente, como sempre fazia em momentos em que desejava ao máximo a minha atenção.

- Você não sabe o pior! Ela me perguntou um dia desses se eu odiava o Tony Stark, porque eu havia mencionado que não curto muito a família Stark em um dos meus desabafos pós Game of Thrones.

- Essa menina é pra guardar num potinho de tão especial.

- Definitivamente.

Nesse devido segundo, o assunto morreu. Vi-me, então, deitada com meu melhor amigo em minha cama de casal, eu do lado esquerdo, ele do direito – era impressionante o quanto certos detalhes viravam costumes, tal como esse simples fato havia virado um dia. Nós frequentemente nos dispúnhamos assim, jogados sobre minhas colchas rosa chá, cada um sempre de um determinado lado, conversando sobre coisas inúteis. Eu sorri para o teto, meio que ainda me divertindo com o caso que há um instante comentávamos, meio que me alegrando por Vip estar tentando se relacionar seriamente com garotas – ele era meio babacão – e meio contente por tê-lo ali comigo naquele momento. Eram muitas emoções de uma vez só.

Fitei, em seguida, as estrelas pregadas em meu teto. Lembrei-me de meu pai.

O sorriso se alargou.

Essa lembrança me fazia mais feliz do que quando eu ganhava balas de goma na infância.

- Você sempre sorri assim para o teto ou é só sob minha honrosa companhia? – meu amigo enfim quebrou a quietude, deitando-se de lado para melhor me observar.

- Você sempre é metido assim ou é só quando está carente? – mantive-me na mesma posição, ainda perdida em minha própria via láctea, e continuei: – Estava me lembrando de um momento com meu pai.

- Qual?

Voltei-me para ele e, tudo o que anteriormente vos narrei, contei-lhe entre suspiros saudosistas:

- Sabe essas estrelas? – e apontei para o teto.

- Sim. Acho que elas são muito bregas também, pra falar a verdade – como ele só estava me provocando, eu o ignorei.

- Sempre que eu as vejo, eu me lembro de uma fala de meu pai... – fechei os olhos, ainda de lábios contentes, e, enquanto eu as proferia para Vip, pude visualizar meu falecido pai dizer as seguintes palavras: – “Cada estrela é um presente; quanto mais elas brilharem, mais preparada você estará, e mais elas se orgulharão de você.”

Voltei-me para a realidade e, de olhos abertos, tornei a encarar precisamente as estrelas, continuando a história:

- Daí eu o perguntei para o quê exatamente eu estaria preparada... e meu pai me respondeu que era para a vida. Desde então, quando eu olho pro teto, eu penso que isso tudo foi uma metáfora: nas estrelas estão meus pais, e eu devo dar a eles todos os dias um motivo para se orgulharem de mim.

Um silêncio se alastrou pelo cômodo, o que me fez virar o rosto para Vip. Ele estava sisudo, contido em um mundo completamente diferente do meu.

- O que foi? – questionei-o.

Sua reação perante uma metáfora tão bonita, e que costumava me roubar sorrisos ao acaso, estranhei, e muito. Mas ele, pensativo, apenas se ajeitou sobre o colchão e pregou seus olhos nos meus.

- É como se ele já previsse a própria morte.

E aquilo me desceu pelo esôfago e me causou indigestão. Meu pai?! Sabendo que morreria?! Sabendo que me deixaria só neste mundo?! Arrepiei-me apenas ao pensar na possibilidade.

Minha pele morena, repentinamente, assumiu o tom pálido da defunta que vira segunda pelo reflexo do espelho.

E, como se não bastasse, perdi o fôlego pela segunda vez naquele dia.

- Cel... – ele pôs a mão em meu ombro e, ao ver que eu estava com dificuldades de respirar, preocupou-se mais e subiu-a à altura da bochecha – Cel, foi só um comentário. Ele não sabia de morte alguma. Foi tudo uma coincidência.

Senti uma pontada no peito atravessar as paredes de meu coração. Minha reação correspondia à fala de Vip como se ela fosse verídica, embora houvesse sido simplesmente um comentário idiota e insensato. Poderia parar com a euforia que me tomava conta, poderia aniquilar tudo aquilo que me corroía por dentro. Algo em meu interior, contudo, persistia em alimentar a possibilidade daquilo tudo ser real.

Mas não era. Não era real. Não era real.

E eu enfim fui capaz de respirar.

Vip soltou um suspiro assim que notou que eu havia voltado ao normal.

- Você quer me matar de susto?

Enterrei o rosto em minhas mãos geladas, sem lhe dar uma resposta, afinal, qual seria essa resposta? Não desejava matar ninguém de susto, muito menos a mim, embora eu o estivesse fazendo repetidamente nos últimos dias. Tudo o que eu pensava ali, no escuro aconchegante de meus dedos frívolos, era em como me fazer parar. E quando vos digo parar, eu me refiro a parar com tudo: desde o beijos sangrentos até os sufocos repentinos e desavisados. Parar com toda essa loucura que me perseguia.

- Isso tudo é porque eu te contei do Pedro? – ele se preocupou – Porque, se for, eu falo com ele que...

- Não – murmurei e levantei meus olhos para fitar os dele – Eu não sei o que é, mas...

Eu engoli em seco.

- Mas?

Tudo o que menos queria era completar aquela frase. Perguntei-me mentalmente qual o motivo de ter colocado aquela conjunção ali, logo depois de uma sentença que conseguiria suprir-se por si só. Não havia, contudo, motivo, eu só a deixara escapar por entre meus lábios carnudos e independentes. E agora teria de responder a meu amigo a verdade, uma vez que eu não sabia lidar muito bem com mentiras.

Responder-lhe a verdade o encheria de preocupações, infelizmente.

- Mas eu tenho tido esses ataques com bastante frequência – querei saber se minha voz estava trêmula? Sim, estava, eu realmente tinha esse incrível dom de deixar tudo mais dramático e terrível.

- É verdade, você teve ontem... Desde quando isso tem acontecido? – seus olhos brilhavam; seus dedos colocavam uma mecha perdida de meu cabelo cacheado para trás da orelha – E por que não me contou antes?

- Desde...

Parei um segundo para pensar; desde quando eu vinha tendo tais ataques? Quando havia sido o primeiro deles, aquele que instaurou essa nova bagunça em minha mente?

E foi nesse momento que minhas pupilas avistaram algo jogado em cima da escrivaninha de vidro. Vip segurou minha mão esquerda e acompanhou meu olhar.

Petrifiquei-me.

- Não sei dizer com exatidão – a mentira, dita com frieza, fora tão automática que eu mal tive tempo de me denunciar a falácia – Não queria te preocupar, por isso não contei.

- Entendi... – meu amigo franziu o cenho – O que foi? O que você tanto olha?

Eu realmente não havia desviado o olhar da escrivaninha por um segundo sequer. Não havia movido um músculo.

- Vip, eu preciso de um tempo sozinha.

- Quer que eu vá? – seu tom de voz ficava cada vez mais caloroso, como se ele, preocupado, quisesse estar ali para ajudar-me com o que fosse preciso. Só que não era preciso.

- Eu converso com você amanhã.

Depois disso, tudo o que ele fez foi lascar-me um beijo na testa e me desejar melhoras. Vip desceu da cama, calçou seus sapatos e sumiu pela porta. Escutei seus passos escada abaixo, ouvi o grunhido da porta da frente se abrir e se fechar. E eu ainda fitava firmemente aquela folha de papel deixada em minha escrivaninha.

Alguém assobiou lá fora.

- Até amanhã, boboca – ele gritara da calçada.

Ergui-me, ainda meio travada, e apanhei o tal papel que tanto via. Desdobrei-o e, sem tirar meus olhos dele, eu respondi meu amigo na beira da janela com a fala de sempre, “te vejo por aí, panaca”. As cortinas flamejavam para fora com o vento frio de inverno, a tarde cedia lugar à noite escura e sombria – e, não tão diferente do tempo, fora meu tom de voz naquele momento: nada alegre, no entanto, nada muito triste. Eu estava, assim como o instante, fria, escura e sombria. Eu estava inexpressiva.

"Você não quer saber por que anda tão afobada?", a fala de Hugo voltara a ressoar em meus pensamentos, e tudo o que eu conseguia pensar era no que tinha em mãos: a carta da OSH que eu havia recebido dias atrás.

A carta que eu havia recebido no dia em que meus ataques começaram.

Parte I: Ingenuidade

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