é aqui que eu deixo fluir a imaginação

Prólogo

2035.

França, Alemanha, Índia, Japão, Brasil...

Nenhum desses países é mais o mesmo. Nenhum tem uma cultura própria, característica. Nenhum se destaca. Nenhum existe.

O mundo inteiro agora tem uma só pátria: Imperia.

Todos os povos são parte dessa realidade. Todos constituem uma única nação; uma nação de iguais. Uma nação em que são cópias uns dos outros, perdendo sua originalidade. Em que nada distingue os cidadãos entre si; em que nada os faz especiais. Uma nação sem diferença de costumes ou de aparências: não importa aonde se vá, todos serão os mesmos. Independente do tom de pele, da estatura, da forma física – todos terão o mesmo loiro nos cabelos, o mesmo azul nos olhos.

E a mesma personalidade.

Todos possuem os típicos olhos sombrios e misteriosos, os quais observam tudo e nada ao mesmo tempo. Olhos incapazes de mostrarem um resquício sequer de alma, de compaixão. Olhos assassinos, indiferentes, mortos.

Todos são cheios de si. Acham-se superiores; agem como superiores. Desprezam os que não concordarem. Contentam-se com seus interesses atendidos, mas se enraivecem com os não atendidos. Comportam-se como animais.

Todos admiram o frio. Eles têm medo de se queimarem com o fogo das emoções, dos sentimentos. Eles gostam de se sentirem fortes e não frágeis. Eles se escondem no verão. Mas, no inverno, eles reaparecem.

Todos são assim. Todos têm os cabelos e a íris clara. Todos são insensíveis e egocêntricos.

Todos.

Todos menos poucos; todos menos os diferentes.

Capítulo 1

Nunca estive tão confusa quanto agora, neste inverno de agosto de 2035.

Não consigo muito bem explicar o porquê. É tudo tão complicado que mal se vê onde está o princípio da história – que claramente não é este – ou as razões que me levam a tantos problemas. Talvez eu não consiga explicar muito bem o que acontece comigo; visto que nem eu compreendo o que se passa em meu interior.

A começar pela minha evidente diferença: eu não sou nada parecida com os outros. Todos ao meu redor são iguais, possuem as mesmas características tanto físicas quanto psicológicas. Porém, eu não sou como eles – meus cabelos são ruivos feito as chamas de uma fogueira e, meus olhos, verdes como a esperança. E eu desconheço o motivo disso. Tenho pais loiros dos olhos azuis, familiares loiros dos olhos azuis. Eu sou a única que não segue os padrões sociais em minha árvore genealógica. E também uma das únicas de toda a minha cidade ou até do planeta.

Moro em Oliver, uma cidade situada na antiga região do Brasil e que fica a 200 quilômetros da Cidade de Imperia, a capital mundial. Não que faça muita diferença em que parte do globo eu esteja, visto que em todos os cantos a sociedade é igual; pois, atualmente, os países não mais existem – o mundo enfim se uniu em uma única nação, Imperia, que é regida por uma só governanta, Maya Oliver. O que muda de uma região para outra são as línguas faladas e talvez alguns tipos de comida. Mas, quanto ao resto das questões culturais, é tudo a mesma coisa. Religiões não existem – apenas se sabe o que elas já foram um dia. Danças e músicas não mais reinam nesse mundo, com exceção apenas daquelas que demonstram classe e elegância. Festas e festivais não são muito comuns, mas os poucos que têm são apenas para homenagear a grandiosidade de alguém.

De qualquer forma, tudo o que eu sei é em decorrência das matérias da escola; caso contrário, nem conseguiria saber que um dia já se dançou samba no meu estado, ou se usaram burcas em algumas regiões do Oriente. Desde que nasci a sociedade é assim, e não conheci outra para contar história. Somente sei o que me ensinaram durante as aulas, pois conhecimento aqui é muito prezado – não sei se sempre foi, mas agora eu tenho certeza de que é.

Voltando ao assunto, sou imperiana e vivo em um mesmo apartamento desde que tinha meus poucos meses de idade. Lá, tive a oportunidade de conhecer meus atuais dois melhores amigos: Gabriel e Lucas. Os dois são bem diferentes um do outro, mas conseguem conviver em paz. Ou pelo menos conseguiam. Um deles é diferente como eu; e, o outro, igual como todos.

Gabriel tem cabelos e olhos castanhos, algo que admiro muito. Sua pele é caucasiana e o queixo é quadrado. Mas o que eu mais gosto nele é o olhar revelador que traz consigo – o garoto não é como todos, que escondem qualquer emoção por trás de uma carcaça dura e fria. Ele expressa o que tem de expressar. Ele não se importa em mostrar que tem sentimentos.

Já Lucas, por sua vez, é normal: reserva-se apenas para as emoções mais duras, como a raiva e o ódio. Nas demais ocasiões, ele costuma ser insensível, frio e sarcástico. Suas características, tanto estéticas quanto emocionais, condizem exatamente com os padrões sociais: ele tem os típicos olhos azuis, tão intensos quanto às ondas do mar, e os cabelos loiros que reluzem ao sol. Suas feições não são nada joviais, enquanto seu físico é encorpado e forte. Muitas vezes ele é até confundido com rapazes mais desenvolvidos e maduros, embora tenha apenas 17 anos.

Nós três somos amigos desde que consigo me lembrar, já que temos a mesma idade e nossos pais cultivaram também, um dia, uma amizade. Não uma amizade muito forte como a nossa, pois geralmente os loiros não costumam se socializar – contudo, foi o suficiente para nos unir e nunca mais nos separar. Talvez, além de ser diferente dos demais, esse seja outro problema meu: os dois.

Há três dias atrás, uma sexta-feira, Gabriel finalmente me disse o que sentia. Recordo-me exatamente de quando nós dois, sentados no sofá de sua sala de estar, ficamos conversando sobre assuntos aleatórios após a aula. E, em meio a eles, eu o ouvi dizer que gostava de mim de um jeito diferente. Aquilo me deu um frio na barriga e, como conseqüência, eu o beijei. Ele sorriu de uma forma que eu nunca vi antes – eu nunca vejo sorrisos. E foi quando ele teve de ir, pois sua mãe o chamava em algum lugar no interior de sua casa. Eu me despedi e saí pela porta da frente, contentando-me pelo que acabara de ocorrer. Então alguém apareceu por lá. Lucas.

O garoto estava subindo pelo elevador, e mesmo que estivesse indo ao apartamento de Gabriel, ele pretendia ir ao meu encontro. Ele sabia que nosso amigo ia confessar tudo o que sentia a mim, e algo me dizia que era por isso que estava lá. Uma onda de desapontamento percorreu seu rosto ao ver que já era tarde demais.

- Ele... ele já disse tudo? – gaguejou.

Era raro vê-lo gaguejar.

- Sim – assenti.

Mas uma enorme força me impulsionou até ele, levando meus lábios aos seus. Contudo, aquilo não deveria estar acontecendo – como poderia gostar de ambos? Não, naquele momento, só existia Lucas e eu, nenhum outro futuro possível. Naquele primeiro segundo podia ver meu destino com ele traçado, nossas vidas unidas. Não existia Gabriel.

Todavia, repentinamente, dei-me conta do que estava fazendo. Aquele não era meu destino, não poderia ser. Meu futuro era com Gabriel. Com mais ninguém. Empurrei-o para o lado, como se o impulso tivesse vindo dele, e parti pelo elevador aberto por onde ele viera. Quando entrei, podia sentir seu perfume suave ainda por lá, um odor até então agradável ao meu olfato. Porém, a forma como sai era assustadora, afogando-me em uma profunda tosse, como se o aroma fosse tóxico ao meu organismo.

Chegando em casa, vi-me em uma situação estranha: eu gostava dos dois? Sim, desde que eu era pequena, eu sabia que tinha grande afeição por ambos. Mas, quanto à outra definição de gostar, até agora eu não consigo responder. Em um momento, eu sinto algo forte por um, enquanto o outro chega a me dar repulsa. E, em outro, a coisa se inverte.

Como eu já disse, eu tenho muitos problemas que nem eu consigo compreender. Contei sobre minha diferença, minha indecisão entre meus dois melhores amigos e, acredite se quiser, eu tenho mais para contar. Como, por exemplo, minhas freqüentes mudanças de personalidade.

Sim, mudanças de personalidade. Agora eu sou uma pessoa, mas, daqui a alguns segundos, eu sou outra completamente diferente. Agora minha opinião é uma, mas, daqui a alguns segundos, ela é outra. Agora minhas atitudes são frias e insensíveis, mas, daqui a alguns segundos, elas são carinhosas e sentimentais.

E não, eu não sei o porquê disso tudo.

Sabe o que mais? Eu vivo tendo perda de memória recente. Eu posso estar andando na rua neste momento e, do nada, não saber mais o porquê de tal feito. Por incrível que pareça isso já me aconteceu, e eu tive de pedir ajuda a Gabriel para voltar para casa. Às vezes as lembranças me voltam à mente; mas também existem momentos em que elas não voltam. Existem buracos na minha vida dos quais eu não me recordo – e creio que jamais me recordarei.

Tudo bem, isso é confuso demais. Eu concordo, pois nem eu me compreendo. Cheguei a pensar tanto em meus problemas que, um dia, uma conclusão me veio à cabeça. Mas era algo tão louco, tão sobrenatural. Temia não conseguir dizê-la a ninguém. Temia que eles não a compreendessem e me julgassem, novamente, como louca.

Mas a ideia me consumiu tanto que eu acabei reencontrando-a em um de meus sonhos ontem à noite. Nele, eu coloquei tudo para fora com uma facilidade inimaginável. Meus dois melhores amigos estavam me ouvindo quando contei toda a realidade sobre quem sou. Joguei-lhes tudo o que eu estava pensando ultimamente; tudo o que me passava pela cabeça. Um deles concordou comigo e me defendeu... Só não lembro qual, exatamente.

No sonho, estávamos em um campo verde e florido que eu nunca vira antes. O local era repleto de pequenas rosas brancas – minhas flores preferidas – e, em meio a elas, havia uma bela árvore de grande porte, cujas folhas compunham a sombra que nos cercava. O sol iluminava todo o ambiente com bastante intensidade; o céu se extinguia de nuvens; a adrenalina corria em minhas veias. A sensação de frescor tomava conta de nós – talvez aquele lugar quieto e bonito tivesse sido o responsável por tornar nossa conversa muito mais... fácil.

Recordo-me de estarmos de mãos dadas e eu de olhos fechados. Eu conseguia claramente sentir a brisa levando meus cabelos claros e rodeando-nos como se transmitisse boas energias. Meu coração acelerava com a ansiedade do momento e, por um segundo, eu reavaliei cada frase que havia planejado dizer.

Era a hora de colocar meus pensamentos para fora.

Dei um suspiro, abri os olhos e deixei minhas preocupações serem levadas com o vento que corria por entre nós três. Eu os disse tudo o que não pára de me atormentar nesses últimos dias:

- Acho que eu finalmente descobri o que está acontecendo comigo.

Gabriel me olhou esperançoso e sorriu.

- O quê? – perguntou Lucas, frio como sempre.

E então eu soltei tudo com tanta facilidade que mal era possível de acompanhar; contudo, a paisagem parecia tão idealizada que amenizava as palavras saídas de meus lábios cobertos pela tinta vermelha-sangue do batom. E, talvez devido a isso, meus amigos pareciam estar entendendo, o que era o mais importante. As frases, simples, fluíram de minha boca sem intervalos e, agora, acordada, sou capaz de me lembrar das feições assustadas que via, das expressões revelando descrença. Aliás, eu mesma mal acreditava naquilo tudo – como seria possível contar tais pensamentos com tanta convicção? Entretanto, mesmo após afirmar loucuras que eu mal compreendia, no final, alguém assentiu e me defendeu.

Porém, não me lembro quem foi que disse que acreditava em mim.

Se eu me lembrar, talvez eu consiga ao menos ponderar dizer tudo isso a alguém. Contudo, até lá, tentarei revirar minhas memórias e concepções à procura de algo que faça mais sentido. Algo mais sensato do que a tal ideia absurda que contei a Gabriel e Lucas durante o sonho.

Mas, como já disse antes, esse não é o princípio da história.

O princípio está há uma semana atrás, quando nada disso era preocupação minha.

Talvez nele eu encontre minhas respostas.

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por Malu Cotta, no fabuloso ano de 2016

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